sexta-feira, 26 de setembro de 2014

O exemplo que vem da Hungria

Pórtico | 26.IX.2014

São muitos e complexos os desafios que constituem a encruzilhada dos problemas da nossa sociedade. Entre eles, a questão da natalidade ocupa um lugar crucial e que, há muito, deveria ter um grau de máxima prioridade no nosso viver em sociedade.

Entre nós, a espaços e com pudores despropositados, sempre de modo intermitente, vamos ouvindo uma ou outra voz dos nossos políticos a referir-se ao assunto. Todavia, ainda não sentimos por parte de nenhum quadrante político uma voz convicta e comprometida com esta questão determinante. E, contudo, a situação é de alarme e reveste-se de contornos dramáticos.

Recentemente, o primeiro-ministro foi discursar no congresso da Associação Portuguesa das Famílias Numerosas e deixou palavras simpáticas aos congressistas. As famílias numerosas saúdam o interesse do Governo na questão da natalidade e dos obstáculos a ter filhos em Portugal, mas habituadas à retórica de circunstância, deixam bem claro que querem ouvir mais do que meras promessas e intenções. O Governo encomendou um estudo sobre a natalidade mas estudos não nos faltam. Falta, isso sim, uma vontade para novas atitudes. Falta talvez, a coragem de encarar a situação de frente como outros países, no dizer de Luís Casal-Ribeiro Cabral, o fazem há muito tempo porque já compreenderam que este é um problema real, urgente e inadiável.

A este propósito, refira-se o caso da Hungria que poderá constituir um bom exemplo para a nossa reflexão. A Hungria, tal como Portugal e a Europa em geral, enfrenta um "Inverno demográfico". Dando-se conta da gravidade da situação, o governo húngaro decidiu actuar e já se começam a colher os frutos das mudanças aplicadas. Em declarações à Rádio Renascença, Katalin Novak afirmou que "nos primeiros sete meses deste ano o aumento de nascimentos é da ordem dos 3,1% em comparação com o ano passado. É um bom sinal".

A responsabilidade por esta inversão da tendência é fruto das dinâmicas implementadas para criar um ambiente mais favorável às famílias. Segundo a governante húngara, foi implementado “um sistema de redução de impostos. Depois do primeiro e do segundo filho os cortes são moderados, mas tornam-se bastante significativos depois do terceiro. Há ainda medidas sobre o abono de família e tentámos tornar mais fácil às mães decidir se querem regressar ao trabalho ou ficar em casa com os filhos. Antes eram-lhes cortados os subsídios se voltassem ao trabalho, mas agora continuarão a receber os benefícios a que têm direito”. Estas medidas  "afectaram directamente 18,2 mil mães.” Katalin Novak esteve na semana passada em Portugal. A secretária de Estado recebeu no Sábado um prémio em nome do Governo húngaro, oferecido pela Associação Europeia das Famílias Numerosas, cujo congresso se realizou no passado fim-de-semana em Cascais.

As opções das políticas de famílias da Hungria têm ainda um cenário mais amplo: Em 2012, a Hungria adoptou uma nova constituição, aprovada pelo partido no poder, que foi eleito com mais de dois terços dos votos. As críticas não se fizeram esperar, nomeadamente por muitas instâncias europeias: desde alertas para o fim da democracia no país até preocupações com a liberdade religiosa.
Katalin Novak diz que tudo nunca passou de alarmismo e acredita que a verdadeira raiz das críticas se encontrava, em parte, no facto de a nova constituição defender a vida desde a concepção, definir o casamento como sendo entre um homem e uma mulher e referir explicitamente Deus e a herança cristã do país.

Entre nós, o sinal de alarme já soa há muito tempo. Fecham maternidades, fecham centros infantis, fecham escolas…vai fechando tudo porque onde deveria haver sinais de vida renovada, há sinais de envelhecimento que comprometem a esperança.

Urge ter a coragem de colocar esta questão na ordem do dia. É já uma questão de sobrevivência.

Padre Mário Tavares de Oliveira

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Recomeça a Escola!

Pórtico | 19.IX.2014

Esta semana ficou marcada pelo início dum novo ano escolar. Após as férias, volta o buliço do regresso às aulas. As artérias voltam a pulsar de vida com os entusiasmos naturais das crianças e dos jovens. Parece que, por encanto, a vida reencontra o seu curso normal e os projectos deixam de o ser para se transformarem em clareiras e horizontes novos onde a vida acontece por entre escolhas e desafios.

O início de um novo Ano Escolar é sempre um hino à esperança. Há os que vão pela primeira vez à escola e levam o alforge cheio de sonhos e fantasias; há os que chegam a anos decisivos e fazem propósitos sérios de resultados meritórios; há os que são finalistas e se vêem já projectados em futuros a acontecer.

Para a sociedade em geral, o regresso às aulas traz esperanças renovadas, gerações mais solidamente formadas, novas capacidades e novas perspectivas de desenvolvimento.

Todavia, apesar de todos estes sinais que pressentimos como vitais para o nosso viver em sociedade, o início de cada ano escolar é motivo para tensões incontroladas, agressões verbais incontidas, ameaças e apreensões. Avolumam-se as acusações contra os governos, os professores denunciam desencantos mil e reivindicam direitos, os sindicatos assumem protagonismos inusitados próprios duma época alta e vamos sentido um aperto no peito que nos amordaça as esperanças que deviam acontecer e compromete os sonhos que imaginámos que poderiam ser possíveis.

Na práctica, o início do ano escolar transformou-se num enorme palco para o confronto político, para as vozes reivindicativas e para os combates ideológicos. E perguntamos: Para quando colocarmos as crianças e os jovens no centro das nossas preocupações? Para quando a concentração de todos os esforços para proporcionar aos nossos jovens condições dignas onde seja possível ver concretizados os seus e os nossos ideais?

A gravidade desta questão, por si só, deveria obrigar a que todos fizessem bem os seus trabalhos de casa para terem uma boa nota na pauta. Que ninguém fuja às suas obrigações. Vamos desejar que isso aconteça!

Padre Mário Tavares de Oliveira