sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Família: Caminhos de Futuro

Pórtico | 10.X.2015

Está a decorrer em Roma o Sínodo Extraordinário sobre a Família. Um Sínodo é um órgão consultivo mediante o qual o Papa sente as sensibilidades, ouve as opiniões e escuta uma grande variedade de vozes representativas da Igreja e do mundo para depois dar orientações aos fiéis cristãos e ao mundo em geral. No fundo, um Sínodo é um esforço de fidelidade e de renovação: Fidelidade à identidade da Igreja e renovação face aos novos desafios que se levantam. Neste caso, as complexidades em torno da questão da Família.

Não é um exagero afirmar que a unidade da Igreja, não obstante os muitos cismas e rupturas que aconteceram ao longo de vinte séculos de Cristianismo, se deve, em grande parte, à sua coerência doutrinal como fruto da fidelidade ao Evangelho. Desde sempre, as novas questões que se foram levantando na história da Igreja levaram a grandes debates donde surgiram novas sínteses, sempre na fidelidade ao Evangelho. Mais uma vez, a Igreja é confrontada com desafios de enorme importância e com problemas novos. Tal como nos séculos passados, a Igreja saberá hoje ouvir, discutir e discernir na fidelidade a Jesus Cristo e no abraço à humanidade.

As páginas do Evangelho não pretendem ser um compêndio completo sobre as problemáticas familiares e muito menos uma resposta directa a todas as situações de todos os tempos e de quaisquer culturas. Porém, o tema da Família não é um tema ausente do Evangelho. Antes, há no Evangelho, uma base bastante abrangente sobre as questões da Família. Mais do que uma vez, Jesus é confrontado com situações concretas a que responde sem deixar dúvidas sobre as perguntas que lhe eram feitas. A unidade e a indissolubilidade do matrimónio são, nomeadamente, questões claramente expressas na mensagem do Evangelho e que nenhuma cultura epocal poderá distorcer ou negligenciar. Por isso, toda a discussão não poderá prescindir do esforço da comunhão nestes pontos essenciais.

Da mesma forma, a Igreja não pode fugir do seu tempo e das realidades presentes. A complexidade dos temas em torno da família exigem reflexões, escutas e discernimentos inadiáveis. A cultura da modernidade, na vivência dos seus ideais, apresentam hoje caminhos de vivência da sexualidade e propostas de valores da Família que representam uma grande fonte de inquietação, quando não mesmo, uma séria provocação à proposta do ideal cristão sobre a Família. A Igreja sempre foi perita em humanidade e não pode deixar de o ser. Para isso, tem de olhar as questões novas e iluminá-las com a luz profética do Evangelho. Virar as costas, fechar os olhos, não ter opinião seria abdicar gravemente da sua missão. Este Sínodo é uma prova de que a Igreja não quer abdicar da sua missão. A pior decisão seria não decidir nada perante desafios tão prementes.

A questão coloca-se com realismo: Como conciliar a vontade de abraçar as dores e as espectativas do nosso tempo com a necessidade de purificação própria dos tempos, no confronto com o Evangelho? Como conciliar a mensagem do Amor de Deus para com todo o ser humano e o anúncio da sua felicidade com o realismo do Evangelho de que a porta é estreita e o caminho apertado? Estamos perante uma missão muito árdua mas decisiva. Tal como outrora, a Igreja saberá deixar-se iluminar pelo Espírito Santo para poder iluminar também os caminhos dos homens.

Um dia, quando Jesus foi confrontado com uma certa forma de abrandamento da Lei de Moisés sobre o matrimónio, respondeu que a Lei de Moisés tinha sido alterada por causa da dureza dos corações mas no princípio, não fora assim. Apesar da delicadeza do tema e da dificuldade do assunto, Jesus não deixou de apontar os caminhos proféticos da dignidade do amor e da família na radicalidade da sua proposta.

Se os tempos são difíceis e se o secularismo ganha cada vez mais formas no nosso viver em sociedade, o caminho não passará por propor uma débil mensagem do Evangelho mas, antes, a autêntica mensagem do Evangelho revestida do esplendor da Verdade com que Jesus a proclamou. O caminho não poderá ser o de acomodar o Evangelho aos anseios dos tempos; o caminho deverá ser sempre o de iluminar os tempos com a Luz do Evangelho. Há, neste esforço, uma questão crucial de identidade do Cristianismo. Se o Evangelho deixar de ser escândalo e loucura, perde a sua força e deixa de ser fermento.

Rezamos para que, mais uma vez, a Igreja saiba anunciar aos homens e às mulheres do nosso tempo a Verdade do Evangelho e a beleza do Caminho que salva porque nos faz encontrar com Jesus Cristo, centro e raiz de todas as opções da missão da Igreja: Ontem, Hoje e Sempre.  

Padre Mário Tavares de Oliveira

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