Pórtico | 10.X.2015
Está a decorrer em Roma o Sínodo Extraordinário sobre a
Família. Um Sínodo é um órgão consultivo mediante o qual o Papa sente as
sensibilidades, ouve as opiniões e escuta uma grande variedade de vozes
representativas da Igreja e do mundo para depois dar orientações aos fiéis
cristãos e ao mundo em geral. No fundo, um Sínodo é um esforço de fidelidade e
de renovação: Fidelidade à identidade da Igreja e renovação face aos novos
desafios que se levantam. Neste caso, as complexidades em torno da questão da
Família.
Não é um exagero afirmar que a unidade da Igreja, não
obstante os muitos cismas e rupturas que aconteceram ao longo de vinte séculos
de Cristianismo, se deve, em grande parte, à sua coerência doutrinal como fruto
da fidelidade ao Evangelho. Desde sempre, as novas questões que se foram
levantando na história da Igreja levaram a grandes debates donde surgiram novas
sínteses, sempre na fidelidade ao Evangelho. Mais uma vez, a Igreja é
confrontada com desafios de enorme importância e com problemas novos. Tal como nos
séculos passados, a Igreja saberá hoje ouvir, discutir e discernir na
fidelidade a Jesus Cristo e no abraço à humanidade.
As páginas do Evangelho não pretendem ser um compêndio
completo sobre as problemáticas familiares e muito menos uma resposta directa a
todas as situações de todos os tempos e de quaisquer culturas. Porém, o tema da
Família não é um tema ausente do Evangelho. Antes, há no Evangelho, uma base bastante
abrangente sobre as questões da Família. Mais do que uma vez, Jesus é
confrontado com situações concretas a que responde sem deixar dúvidas sobre as
perguntas que lhe eram feitas. A unidade e a indissolubilidade do matrimónio são,
nomeadamente, questões claramente expressas na mensagem do Evangelho e que
nenhuma cultura epocal poderá distorcer ou negligenciar. Por isso, toda a
discussão não poderá prescindir do esforço da comunhão nestes pontos
essenciais.
Da mesma forma, a Igreja não pode fugir do seu tempo e das
realidades presentes. A complexidade dos temas em torno da família exigem
reflexões, escutas e discernimentos inadiáveis. A cultura da modernidade, na
vivência dos seus ideais, apresentam hoje caminhos de vivência da sexualidade e
propostas de valores da Família que representam uma grande fonte de inquietação,
quando não mesmo, uma séria provocação à proposta do ideal cristão sobre a
Família. A Igreja sempre foi perita em humanidade e não pode deixar de o ser.
Para isso, tem de olhar as questões novas e iluminá-las com a luz profética do
Evangelho. Virar as costas, fechar os olhos, não ter opinião seria abdicar
gravemente da sua missão. Este Sínodo é uma prova de que a Igreja não quer
abdicar da sua missão. A pior decisão seria não decidir nada perante desafios
tão prementes.
A questão coloca-se com realismo: Como conciliar a vontade
de abraçar as dores e as espectativas do nosso tempo com a necessidade de purificação
própria dos tempos, no confronto com o Evangelho? Como conciliar a mensagem do
Amor de Deus para com todo o ser humano e o anúncio da sua felicidade com o
realismo do Evangelho de que a porta é estreita e o caminho apertado? Estamos
perante uma missão muito árdua mas decisiva. Tal como outrora, a Igreja saberá
deixar-se iluminar pelo Espírito Santo para poder iluminar também os caminhos
dos homens.
Um dia, quando Jesus foi confrontado com uma certa forma de
abrandamento da Lei de Moisés sobre o matrimónio, respondeu que a Lei de Moisés
tinha sido alterada por causa da dureza dos corações mas no princípio, não fora
assim. Apesar da delicadeza do tema e da dificuldade do assunto, Jesus não
deixou de apontar os caminhos proféticos da dignidade do amor e da família na
radicalidade da sua proposta.
Se os tempos são difíceis e se o secularismo ganha cada vez
mais formas no nosso viver em sociedade, o caminho não passará por propor uma
débil mensagem do Evangelho mas, antes, a autêntica mensagem do Evangelho
revestida do esplendor da Verdade com que Jesus a proclamou. O caminho não
poderá ser o de acomodar o Evangelho aos anseios dos tempos; o caminho deverá
ser sempre o de iluminar os tempos com a Luz do Evangelho. Há, neste esforço,
uma questão crucial de identidade do Cristianismo. Se o Evangelho deixar de ser
escândalo e loucura, perde a sua força e deixa de ser fermento.
Rezamos para que, mais uma vez, a Igreja saiba anunciar aos
homens e às mulheres do nosso tempo a Verdade do Evangelho e a beleza do
Caminho que salva porque nos faz encontrar com Jesus Cristo, centro e raiz de
todas as opções da missão da Igreja: Ontem, Hoje e Sempre.
Padre Mário Tavares de Oliveira
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