Pórtico | 17.X.2014
O
Sínodo Extraordinário dos bispos sobre a Família veio mostrar um rosto de
Igreja a que não estávamos habituados. De repente, a Igreja transformou-se num
fórum de diálogo, de troca de ideias, de discussões acesas e de confrontos
animados. A este facto, não é alheia a atitude do Papa Francisco que tem
incutido uma cultura de proximidade e de abertura sem fugir às questões mais urgentes.
Muitos estão preocupados com o que possa acontecer mas, num mundo que faz da
comunicação global um dos seus pilares mais salientes, não pode ser de outro
modo.
Estávamos
habituados a ver a Igreja com a preocupação de ser um corpo coeso, a falar em
uníssono, com um perfil monolítico onde as discordâncias sobre alguns pontos e a
pluralidade de opinião eram vistas como notas preocupantes que pareciam pôr em
perigo a unidade. Se houvesse, e sempre houve, alguma divergência mais grave,
os assuntos eram tratados em círculos internos, tentando não deixar
transparecer fracturas ou divisões. A unidade na diversidade foi sempre um
desafio de contornos difíceis.
A
emergência de novas vozes culturais cada vez mais diversas, vindas dos
continentes e das mais jovens Igrejas, a par da urgência das questões em torno
da família e o posicionamento do Papa perante os problemas, a par do débito de
identidade por que passa a alma cristã resultaram num Sínodo apaixonado e
repleto de desafios. Pela primeira vez, o Sínodo aconteceu não só na aula
sinodal. Foi um Sínodo dos bispos mas a discussão dos assuntos fez-se sentir também
nas comunidades paroquiais, nas homilias e nos círculos cristãos, no debate das
ideias desde as conversas de café aos ambientes intelectuais, nas preocupações
dos meios da grande comunicação social ou nos pequenos órgãos locais. Podemos
dizer, sem riscos de engano: O mundo foi a casa do Sínodo.
O
resultado pode parecer caótico porque houve espaço para todo o tipo de opinião
mas o fruto deste Sínodo não tem que desaguar numa nova babilónia onde a
confusão de línguas conduza ao desmoronamento da verdade.
Eu
confio que a Igreja vai sair mais rejuvenescida desta experiência sinodal.
Contudo, para que isso aconteça, a Igreja tem que renovar o compromisso com a
sua identidade: Ser uma comunidade de discípulos que fazem da abertura ao
Espírito Santo a alma da sua experiência. É o Espírito que, iluminando os
corações e a mente, renova e purifica todas as coisas, deixando em pé somente a
Verdade.
A
coragem do diálogo é um esforço que se saúda mas há que ter uma coragem ainda
maior para perguntar: - E Jesus Cristo, de que modo pode iluminar a Família no
nosso tempo? Qual a mensagem genuína do Evangelho que pode apontar caminhos e
fazer ultrapassar obstáculos? Esta é a questão central e terá que ser a tónica
de todos os diálogos. Refontalizada no encontro sempre novo com Jesus Cristo, a
Igreja saberá redescobrir o seu rosto de Mãe sem deixar de ser Mestra.
As
famílias cristãs do nosso tempo esperam da Igreja uma palavra clara, transparente,
iluminadora mas, sobretudo, evangélica. Um Sínodo não pode ser uma academia de
diálogos inconclusivos e sem apontar critérios. Duma assembleia de bispos
espera-se não unicamente análises sociológicas e conjunturais mas sim a
iluminação das realidades actuais pelo Evangelho. As questões graves da Família
requerem uma síntese adequada e uma iluminação verdadeiramente cristãs.
O
que aconteceu até agora foi o registo duma tensão profética, diria, inevitável
para abrir clareiras e horizontes. Há que redescobrir a beleza da mensagem
cristã autêntica que é proposta para as famílias de todos os tempos. Esta
redescoberta deve ser um esforço comum de toda a Igreja sem prejuízo de que
cabe ao Papa, auscultando os padres sinodais, o carisma do discernimento sobre
as questões, bem como o múnus de santificar, ensinar e governar a Igreja. O
Sínodo Extraordinário sobre a Família é só um ponto saliente deste caminho
repleto de desafios. Uma das belezas substantivas da Igreja é que somos
chamados a reconstruí-la em cada tempo, na fidelidade e na renovação.
Apagadas
as luzes da aula sinodal, o diálogo vai continuar nas mais diversas formas. Estamos
em crer que algo mudou no nosso modo de ser da Igreja. Da discussão nasce a
luz, diz o adágio, e essa Luz tem que ter um nome: Jesus Cristo.
Padre Mário Tavares de Oliveira
Sem comentários:
Enviar um comentário