Pórtico | 30.I.2015
Quem
não se lembra, na primeira década de dois mil, dos escândalos de pedofilia que
assolaram a Igreja dos Estados Unidos e, em particular, a Diocese de Boston?
Durante meses a fio, as notícias atropelavam-se com novos desenvolvimentos cada
vez mais corrosivos, envergonhando a Igreja de forma implacável e questionando
a validade da sua missão.
Todavia,
um olhar mais atento, intuía que todo aquele caudal de notícias pretendia mais
do que informar. Sem questionar a gravidade das situações e a justeza das
denúncias, havia, porém, para além da vontade de justiça, interesses que
pretendiam, simplesmente, fazer desacreditar a Igreja como instituição. E, de
facto, em muitos cenários, o desmoronamento parecia inevitável e a recuperação
do pesadelo, uma impossibilidade.
Recentemente,
entrei em contacto com o que se está a passar, neste momento, no Seminário de
Boston decorrida que é cerca duma década após os fatídicos acontecimentos que
levaram, inclusive, à falência financeira de dioceses de referência nos Estados
Unidos. Antes dos escândalos de pedofilia que vieram a lume, o Seminário de
Boston, no ano lectivo de 2001/02, tinha inscritos 86 alunos. Com a crise que
se instaurou, este número diminuiu drasticamente para 34, no ano lectivo de
2005/06. As análises em torno a esta situação eram dramáticas e estes números
eram desoladores e preocupantes.
A
verdade, porém, é que, no fim da década, no ano lectivo de 2009/2010, o
Seminário Maior de Boston já tinha inscritos 91 alunos, na sua quase maioria,
oriundos da região de Boston. De então para cá, o número estabilizou superando
o espectro desolador criado com questão da pedofilia. Hoje a situação é de
grande esperança e confiança no futuro. Esta situação é comum à maior parte dos
Seminários das dioceses americanas tocadas com maior ou menor gravidade com
esta situação dolorosa que tocou à Igreja norte americana.
Confrontada
com este gravíssimo problema, a Igreja soube abraçar na dor e na humildade um
processo corajoso de grande purificação e verdade. Soube reformar-se e
encontrar as pessoas certas para os lugares certos a que não é alheia a
nomeação do novo Arcebispo Sean O’Maley, franciscano. A Igreja assumiu com
dignidade as culpas que lhe competiam e foi capaz de conversão e mudança.
Interrogados
os actuais alunos do Seminário que eram adolescentes quando rebentaram os
escândalos de pedofilia, sobre as razões que os levaram a ingressar no Seminário
apesar de terem crescido com a informação deste cenário tenebroso, eram
unânimes em afirmar que, naquele cenário de extrema debilidade, tinha falado
mais alto o bom testemunho dos padres que conheciam. Com efeito, a maioria dos
sacerdotes viviam com grande dignidade o seu ministério e isso foi mais forte
que o caudal devastador das notícias, sendo decisivo para que tantos jovens se
deixassem tocar pelo seu testemunho.
O
caminho da conversão, da humildade e do testemunho de vida serão sempre o
segredo para a renovação da Igreja. Esta lição que nos vem da Igreja dos
Estados Unidos deverá ser inspiradora para a Igreja universal que, ciclicamente,
apresenta os inevitáveis sinais da corrosão dos tempos.
Não
por acaso, as primeiras palavras de Jesus aos seus discípulos foram,
precisamente: «Convertei-vos e acreditai no evangelho». Quando levamos a sério
as palavras de Jesus, nos convertemos e acreditamos, a vida transfigura-se,
revelando de modo sempre novo, a beleza da sua proposta de salvação, apesar das
debilidades humanas.
Padre Mário Tavares
Padre Mário Tavares
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