Pórtico | 24.X.2014
No
passado Domingo, o Papa Francisco beatificou na Praça de S. Pedro, em Roma, o
Papa Paulo VI. No coração do século XX, Paulo VI ficou ligado a páginas
fundamentais da Igreja como o Concílio Vat. II, à sua aplicação nas comunidades
cristãs e a documentos de notável importância. Todavia, a sua beatificação não
se prende por ter sido unicamente o Papa do Vat. II mas, antes, por um
testemunho de vida que não passou indiferente à comunidade dos crentes.
Durante a sua homilia, o
Papa Francisco sublinhava, perante uma imensa multidão que celebrava também o
encerramento do Sínodo Extraordinário sobre a Família: "A respeito deste
grande Papa, deste cristão corajoso, deste apóstolo incansável, diante de Deus
hoje só podemos dizer uma palavra tão simples como sincera e importante:
obrigado! Obrigado, nosso querido e amado Papa Paulo VI”!
O sucessor de João XXIII
teve a difícil missão de conduzir a Igreja em tempos de mudança. O mundo mudara
e a Igreja não podia ficar indiferente aos ventos da história. Não se subjugou
a eles mas era imperioso abraçar os homens e as mulheres deste tempo com
propostas duma Igreja renovada. A Igreja só permanece de pé porque, ao longo
dos séculos, teve sempre a coragem da mudança. Coube a Paulo VI esta difícil
missão.
Ao Papa Montini ficam
ligadas algumas ideias fundamentais: Entre elas, a da «civilização do amor» com
que procurou iluminar as suas palavras deixando páginas empolgantes sobre o
Mandamento do amor. Os seus apelos à fraternidade entre os povos e a defesa da justiça
como aliada da caridade fizeram dos seus apelos verdadeiros pregões que não
deixaram indiferente o mundo de então.
As suas palavras foram
acompanhadas de inúmeros gestos que aqui recordamos: A Paulo VI se deve o abdicar
do uso da teara de ouro que mandou derreter para construir um bairro para
pobres em Manila, nas Filipinas. A ele se deve o fim do uso da sede gestatória
onde os Papas eram conduzidos nas suas aparições em público. Foi o primeiro
Papa a viajar para fora de Itália e a visitar Fátima. Teve a coragem de abraçar
o Patriarca Atenágoras em Nazaré, gesto que significou o levantamento da
excomunhão recíproca que maculava as relações entre as Igrejas católica e ortodoxa.
E poderíamos apontar muitos mais gestos que marcaram o seu pontificado.
Em Fátima, perante um
mundo que não caminhava na melhor direcção e onde o homem era cada vez mais
oprimido, ficou célebre o tom veemente que incutiu às suas palavras na homilia
ao exortar: «Homens, sede homens»!
Mas uma das suas
características mais notórias da sua vida foi também salientada pelo Papa
Francisco:
«No seu diário pessoal, depois do
encerramento da Assembleia Conciliar, o grande timoneiro do Concílio deixou
anotado: “Talvez o Senhor me tenha chamado e me mantenha neste serviço não
tanto por qualquer aptidão que eu possua ou para que eu governe e salve a
Igreja das suas dificuldades actuais, mas para que eu sofra algo pela Igreja e
fique claro que Ele, e mais ninguém, a guia e salva”».
Num dos seus documentos mais notáveis e
que permanece com indiscutível actualidade, a Evangelii Nuntiandi, Paulo VI convidava a Igreja à urgência do
testemunho de vida. E lembrava: «O mundo de hoje ouve mais depressa os
testemunhos do que os mestres e só ouve os mestres se eles forem testemunho». E
nesse mesmo documento perguntava: «Ó cristãos! O que fizestes à luz que
recebestes no dia do vosso baptismo?»
Por ocasião da beatificação de Paulo
VI, procuremos conhecer melhor os gestos deste apóstolo de Cristo e saibamos
acolher o desafio do testemunho para que o mundo nos reconheça como verdadeiros
discípulos de Jesus Cristo.
Padre Mário Tavares de Oliveira
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