Pórtico | 20.II.2015
Na era de todas as globalizações, o Papa Francisco vem
alertar para uma nova faceta deste complexo fenómeno: A indiferença. Fá-lo na
sua mensagem quaresmal e convida os cristãos e as comunidades a enfrentar este
mal, fortalecendo os corações com o espírito de conversão próprio deste tempo.
A indiferença pode ter vários rostos e o pior de todos é a
hipocrisia. Temos bem viva na memória a tragédia que vitimou vários jornalistas
em França. De imediato, os Média motivaram a opinião pública para uma onda de
solidariedade de dimensões gigantescas. “Je suis Charlie” tornou-se uma
bandeira comum. Em Paris, uma manifestação de dimensões épicas, com dezenas de
chefes de Estado e autoridades destacadas, denunciava a indignidade de um acto
que chocou o mundo.
Entretanto, esta semana foram degolados mais 21 cristãos na
Líbia por um único crime: Eram cristãos. O horror das imagens e a atrocidade
incomensurável do acto, desta feita, não foram suficientes para provocar nos mesmos
Media uma reacção proporcional à brutalidade da notícia. E pergunta-se: Porquê
tanta solidariedade com uns e tanta indiferença com outros? Valerão mais as
vidas de alguns jornalistas que lamentamos do que a vidas destes cristãos e de
muitas centenas de outros cristãos? Morrer em França é diferente do que morrer
na Líbia ou na Síria?
O fundador da Comunidade de Santo Igídio, Andrea Riccardi,
numa magistral obra sobre os mártires do século XX, denunciava que o século
passado fora o mais feroz na perseguição aos cristãos. Esta denúncia também nunca
foi notícia. Entretanto, os primeiros 15 anos do século XXI estão a ser o palco
das mais terríveis perseguições de que há memória sem que a opinião pública
seja informada devidamente e, sobretudo, alertada para o que se está a viver.
Esta indiferença é cúmplice de interesses escondidos mas que
não conseguem disfarçar as suas intenções. Onde estão os Chefes de Estado a
denunciar as perseguições contra os cristãos? Onde estão as páginas inundadas
de “Eu sou cristão”? A maior cegueira é aquela que não quer ver e a pior das
indiferenças é a ideológica ao serviço dos interesses obscuros.
A actualidade da mensagem do Papa é de capital importância.
Denuncia interesses e apela aos compromissos. A passagem da hipocrisia ao compromisso
e da indiferença à corresponsabilidade, só poderão acontecer se fortalecermos
os nossos corações com a luz da Verdade e da Misericórdia.
A Quaresma é um tempo oportuno para passarmos dos bons
propósitos aos actos que edificam. Com o nosso coração fortalecido por um
verdadeiro espírito de conversão, unamos os nossos esforços contra a corrente
ignóbil da Globalização da indiferença. Agora!
Padre Mário Tavares de Oliveira
Padre Mário Tavares de Oliveira
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