Pórtico | 13.II.2015
Esta semana, o Mediterrâneo serviu, mais uma vez, de cemitério
para centenas de vítimas que não conseguiram chegar a Lampeduza. Era gente
pobre e faminta a fugir de cenários de profunda injustiça que não oferecem
condições mínimas de sobrevivência. Eram pobres e eram irmãos nossos. Partiram
com a esperança dum porto de abrigo mas naufragaram, desesperados, nas águas do
mar. Cada dia se repetem naufrágios deste tipo sem que a solidariedade
internacional se mova em direcção às verdadeiras causas, com medidas eficazes e
urgentes.
São muitos os cenários que põem de manifesto a nossa
dificuldade comum em construir uma sociedade mais humana e mais fraterna. O que
se passa com a perseguição aos cristãos na Síria, na Índia e em outros lugares,
deveria envergonhar o mundo, mas não envergonha. O que se passa com as tribos
índias na Amazónia e em outros lugares é inadmissível, mas vamos fechando os
olhos. Os horrores em múltiplas situações de África são gritantes mas fingimos
que não ouvimos. Os dramas que nem sequer são relatados pelos meios de
comunicação são infindáveis. Volta a ser actual o refrão: «Vemos, ouvimos e
lemos…não podemos ignorar».
Com frequência, o Papa Francisco levanta a sua voz de
profeta, exortando à solidariedade internacional para o drama dos que fogem da
fome e encontram a morte a caminho de Lampeduza. Ele mesmo já foi em
peregrinação a este verdadeiro santuário da dor humana e não se cansa de chamar
a atenção para este e muitos outros dramas.
No meio de tantas situações dolorosas, corremos o risco de
nos irmos habituando às notícias e a encararmos como normal a escuta de tais
relatos que vão crescendo de intensidade. Talvez por defesa, vamos estando cada
vez mais insensíveis e indiferentes perante a dor humana.
É certo que os problemas são complexos e não haverá soluções
fáceis. Todavia, há que ter a coragem de nos perguntarmos se estamos a fazer
tudo o que está ao nosso alcance para minorar estas situações. Estados,
organizações oficiais ou não, grupos com capacidade de intervenção, grupos
económicos que gerem grandes capitais…estarão a fazer tudo o que está ao seu
alcance para responder aos dramas que vamos assistindo diariamente? Para quando
uma resposta solidária?
É urgente que surjam profetas a denunciar a indiferença e
anunciar novos caminhos. Também dentro da Igreja, é importante que não se calem
as vozes carismáticas que fazem actuar o Espírito que renova todas as coisas.
Nada contradiz mais a missão da Igreja do que o seu imobilismo e indiferença
perante os males do mundo. Felizmente, a Igreja realiza uma obra gigantesca no
apoio aos mais necessitados mas temos de nos interrogar se não podemos fazer
algo mais.
Aproxima-se o tempo da Quaresma, um tempo de partilha
solidária. Há que passar do eu solitário ao nós solidário, como nos adverte
frei Manuel Ventura na sua obra que recomendamos para este tempo. Não podemos
deixar que o nosso bem-estar nos embale na indiferença cúmplice. Deixemos que,
no nosso íntimo, nos inquiete a pergunta: Não poderemos mesmo fazer algo mais?
Padre Mário Tavares de Oliveira
Sem comentários:
Enviar um comentário