Pórtico | 06.II.2015
A
victória do Syriza na Grécia tem provocado um verdadeiro vendaval na Europa.
Até aqui, o discurso da lógica capitalista tem-se revelado em sentido único,
dogmático e implacável. A economia alcançou um estatuto de tal super-estrutura
que lhe permite fazer especulações que o sistema político já não controla e
impor obrigações aos próprios Estados que estes não conseguem satisfazer. Promoveu
as dívidas soberanas com facilitismos tentadores e, agora, tem os Estados como
reféns. As vítimas são as pessoas.
E
quem são, afinal, os “senhores” que controlam este sistema e que com ele mais
ganham? Ninguém sabe. Não mostram o rosto; dizem, simplesmente, que são “o
sistema”. E não hesitam em afirmar o que parece óbvio: «Quem deve, tem que
pagar e na proporção das nossas especulações. Pediste um milhão e hás-de pagar
o que nós ditarmos».
O
resultado está à vista: As dívidas soberanas atingiram níveis incomensuráveis.
Mesmo as ditas viáveis, só o serão a longo, muito longo prazo. Estamos hoje a
gastar o que os nossos tetranetos hão-de pagar. Não admira, pois, que alguns
venham dizer que “as dívidas soberanas não são para pagar: são para se ir
pagando”.
Na
Grécia, a situação explodiu. A Grécia não tem qualquer possibilidade de pagar a
sua dívida soberana, pelo menos, é o que se diz. A situação social estrou em
ruptura com tamanha austeridade e o Syriza ganhou. Desde, então, há um
verdadeiro ciclone instalado na Europa e não se prevê que se instale facilmente
um anti-ciclone que torne o clima mais ameno como, entre nós, acontece com o
dos Açores.
Que
fazer? Como ultrapassar a férrea lógica capitalista com os seus dogmas
implacáveis em oposição à impossibilidade da Grécia pagar o que deve a quem a
arrastou para tão grande pesadelo soberano? Claramente, “o sistema” vai ter que
repensar os seus critérios e, certamente, o Syriza vai ter que amadurecer as
suas ideias.
A
cultura das liberdades e do bem-estar redundou num facilitismo de consequências
difíceis de ultrapassar. Há que instituir a cultura da responsabilidade a todos
os níveis para que quem está a lucrar desmesuradamente, abrande a sua ganância
e quem promoveu tanto a anarquia dum Estado despesista, se sinta obrigado a
mudar de atitudes e a empreender as reformas necessárias para o equilíbrio
social.
A
presente situação dever-nos-ia levar a reler algumas páginas do Antigo
Testamento. Quer antes como depois do Exílio, os textos sagrados proclamam um
ano jubilar com perdão das dívidas. Lê-se, por exemplo, no livro do
Deuteronómio, 15, 1-2: «Cada sete anos, celebrarás o ano da remissão das
dívidas. Isto quer dizer o seguinte: Todo o credor que tenha emprestado alguma
coisa ao seu próximo, perdoará o que tiver emprestado.»
É
fácil de entender que o pensamento do autor sagrado estava longe de imaginar o
que viria a ser uma dívida soberana do quilate da actual grega ou mesmo da
portuguesa, não sendo, por isso, viável a aplicação directa desta passagem aos
actuais conceitos de dívida. Além disso, os exegetas opinam que esta directiva
nunca se conseguiu pôr em práctica porque os ricos nunca o permitiram. Todavia,
percebe-se que há uma sabedoria velada neste texto bíblico que tem vários
paralelos noutras passagens. O simples facto da Escritura registar um ano de
perdão das dívidas, é já de si significativo e deveria gerar alguma reflexão.
Luigino Bruni, num Editorial do Avennire, reputado jornal italiano, refere com pertinência:
“É o perdão que transforma um povo numa comunidade. Conseguimos tornar-nos comunidade quando, após desvairadas guerras fratricidas, nos perdoamos colectivamente, nos reconciliamos chorando em conjunto nas sepulturas dos mortos de ambos os lados, alegrando-nos, cantando e dançando nas festas de todos. Foi assim que fizemos também ‘milagres’ económicos. Apenas os povos-comunidade sabem fazer grandes economias; (…) Voltaremos a ver novos milagres económicos e civis se formos capazes de tornar a ser comunidade, certamente de um modo totalmente novo e diverso, mas sempre comunidade. (…)”.
O perdão não poderá, jamais, sancionar os comportamentos irresponsáveis, de despesismos descontrolados do Estado ou de consumismos desvairados. Mas a justiça também deverá obrigar a refrear a ganância dos que se acham omnipotentes e sem escrúpulos nem pudores exigem impor os seus critérios diante da indigência que provocaram aos mais débeis.
Padre Mário Tavares de Oliveira
Luigino Bruni, num Editorial do Avennire, reputado jornal italiano, refere com pertinência:
“É o perdão que transforma um povo numa comunidade. Conseguimos tornar-nos comunidade quando, após desvairadas guerras fratricidas, nos perdoamos colectivamente, nos reconciliamos chorando em conjunto nas sepulturas dos mortos de ambos os lados, alegrando-nos, cantando e dançando nas festas de todos. Foi assim que fizemos também ‘milagres’ económicos. Apenas os povos-comunidade sabem fazer grandes economias; (…) Voltaremos a ver novos milagres económicos e civis se formos capazes de tornar a ser comunidade, certamente de um modo totalmente novo e diverso, mas sempre comunidade. (…)”.
O perdão não poderá, jamais, sancionar os comportamentos irresponsáveis, de despesismos descontrolados do Estado ou de consumismos desvairados. Mas a justiça também deverá obrigar a refrear a ganância dos que se acham omnipotentes e sem escrúpulos nem pudores exigem impor os seus critérios diante da indigência que provocaram aos mais débeis.
Padre Mário Tavares de Oliveira
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