quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

«Tão alto quanto os olhos alcançam» - Exposição

PÓRTICO | 2015.02.26


O Fórum Eugénio de Almeida tem patente ao público a Exposição «Tão alto quanto os olhos alcançam». Anunciou agora que o prazo da mesma foi prorrogado até 5 de Abril de 2015. É notável o esforço que a Fundação Eugénio de Almeida tem feito na promoção das artes e da cultura, consolidando um lugar substantivo neste domínio, numa cidade com claro défice cultural.

«Tão alto quanto os olhos alcançam» tem a curadoria de Delfim Sard e congrega um selecto espólio de arte sacra da Arquidiocese de Évora bem como uma criteriosa escolha de obras de autores modernos, não vinculados ao espaço artístico do religioso. O resultado é uma conseguida simbiose plástica onde a espiritualidade assume diversas gramáticas e registos. O visitante ficará surpreendido num primeiro olhar ao constatar a convivência dos estilos vários mas os percursos propostos conduzi-lo-ão, certamente, a um festim não solicitado mas que se torna possível quando a alma está disponível para ser surpreendida.

Hans Urs Von Balthasar, insigne teólogo jesuíta, autor de “A Verdade é Sinfónica”, afirma numa das suas obras nucleares: “Deus precisa das formas para se manifestar. Aqui reside a associação analógica entre a estética natural e a sobrenatural que permite à liberdade do Espírito divino servir-se de todas as formas de expressão humanas como veículo da sua poesia”[1]. Segundo este autor, as fontes da beleza das coisas criadas evidenciam-se graças à acção do Espírito que transfigura em poesia as realidades sensíveis.

Há uma vocação intrínseca na arte e na cultura à transcendência. É sabido que, desde o iluminismo, os artistas e os homens da cultura nem sempre caminharam em sintonia com a Igreja. Se preferirmos, os expoentes mais elevados da criação artística que habitualmente encontravam no interior Igreja o espaço inspirador para as suas criações, emanciparam-se do seu convívio. Estou certo que as perdas ficaram repartidas quer para a Igreja que viu debilitado o seu papel de veículo cultural e artístico quer para a comunidade dos artistas que desaprenderam o caminho para fontes inesgotáveis de decunda inspiração.

É hora deste divórcio se dissipar e de se abaterem as desconfianças injustificadas. Desde Paulo VI, os pontífices da Igreja têm feito um notável esforço por aproximar os artistas e os homens da cultura. João Paulo II, na sua memorável Carta aos Artistas, no nº 10, em Abril de 1999, não hesitava em afirmar: «Mesmo fora das suas expressões mais tipicamente religiosas, a arte mantém uma afinidade íntima com o mundo da fé, de modo que, até mesmo nas condições de maior separação entre a cultura e a Igreja, é precisamente a arte que continua a constituir uma espécie de ponte que leva à experiência religiosa». Palavras iluminadas que deveriam servir de base para um diálogo cada vez mais fecundo entre a proposta cristã e as expressões artísticas e culturais.

Muito caminho há ainda a percorrer para sabermos ler, nas formas conseguidas pelas artes, a serena modelação do Espírito que conduz a história. Mas a rota está traçada e sob a batuta do Papa já santo: «Mesmo quando perscruta as profundezas mais obscuras da alma ou os aspectos mais desconcertantes do mal, o artista torna-se, de qualquer modo, voz da esperança universal de redenção». 

A exposição «Tão alto quanto os olhos alcançam» é uma feliz evidência destas palavras programáticas do Papa João Paulo II e uma oportunidade única de as ver plasmadas entre nós. Parabéns à Fundação Eugénio de Almeida. Eventos como este evidenciam a importância da sua vocação e missão na urbe declarada património da humanidade.

Padre Mário Tavares de Oliveira





[1] VON BALTHASAR, Hans Urs, Gloria I: A percepção da forma, ed.  Encuentro, Madrid,1983, p.44).

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