PÓRTICO |20150327
Na basílica da Santíssima Trindade, em Fátima, um Cristo
monumental de generosas dimensões não deixa indiferente a quem entra naquele
espaço sagrado. O seu rosto revela um sofrimento extremo e as suas feições assemelham-se
mais a um sem-abrigo do que aos rostos que a arte sacra nos costuma legar.
A escultora teve, certamente, uma vontade muito vincada de
dizer que a cruz de Jesus, longe de ser uma história do passado, reveste-se
duma actualidade premente e duma urgência inadiável. Aquela imagem do
crucificado desafia-nos a viver o mistério pascal no coração da nossa história
presente e não apenas como uma recordação religiosa.
Um crucificado não tem que ser uma coisa bela de se ver.
Isaías, ao profetizar o gesto redentor, refere que «diante dele se volta o
rosto». A arte, neste caso, modela as palavras do profeta e propõe-nos um
Cristo para quem não apetece olhar porque, no fundo, reconhecemos n’Ele a nossa
própria miséria.
O que celebramos na Páscoa é, para além da dor, o
mistério do amor e a vida nova do ressuscitado. O fruto da Páscoa deverá ser a
alegria do discípulo que sente o abraço caloroso dum Pai que nos ama, dum Filho
que se faz nosso irmão e do Espírito que nos renova. O testemunho da alegria deveria
ser o distintivo do cristão.
Miguel Torga, peregrino num itinerário entre luzes e
sombras, não fica indiferente perante a celebração dos mistérios cristãos e, a
propósito do Domingo de Ramos, confidencia-nos: «Dia de Ramos. Como o
catolicismo soube aproveitar as estações da natureza! É que não há ninguém,
mesmo ateu, a quem não apeteça, numa manhã destas, ir ali à hortinha, cortar um
galho, alçá-lo e caminhar assim, florido ao sol da Primavera!»
A semana santa evoca esta nossa vontade de encontro com o
sentido da vida. As depressões sociais e os males que nos afligem não podem ser
a palavra maior. A vida que renasce, a alegria com que se acena sob o sol da
Primavera têm que gritar mais alto em cada um de nós.
Os rituais que marcam estes dias, celebrando os mistérios
cristãos, são vias de acesso à vida transfigurada em Cristo Jesus. A Igreja
propõe-nos a beleza da liturgia para, através dela, redescobrirmos os caminhos
da nossa comunhão com Deus. Só aí encontraremos as razões da nossa esperança e
uma plenitude não imaginada. O perigo é ficarmos no cumprimento dos preceitos,
encarcerando os gestos de Jesus e hipotecando as nossas possibilidades de
transfiguração.
A grandiosa lição da Páscoa, contudo, é a descoberta do
serviço aos outros como testemunho maior do amor. O Ressuscitado é o servo que
lava os pés aos discípulos e que morre por eles na cruz. O amor aos outros,
reflexo do amor que Jesus por nós, é o modo genuíno do cristão celebrar a
Páscoa.
Jesus quer celebrar a sua Páscoa connosco; que renasça em
nós uma renovada vontade de a celebrar com Ele. A todos, uma santa semana e uma
Páscoa na alegria do ressuscitado!
P. Mário Tavares de Oliveira