sábado, 28 de março de 2015

A SEMANA MAIOR

PÓRTICO |20150327



Na basílica da Santíssima Trindade, em Fátima, um Cristo monumental de generosas dimensões não deixa indiferente a quem entra naquele espaço sagrado. O seu rosto revela um sofrimento extremo e as suas feições assemelham-se mais a um sem-abrigo do que aos rostos que a arte sacra nos costuma legar.

A escultora teve, certamente, uma vontade muito vincada de dizer que a cruz de Jesus, longe de ser uma história do passado, reveste-se duma actualidade premente e duma urgência inadiável. Aquela imagem do crucificado desafia-nos a viver o mistério pascal no coração da nossa história presente e não apenas como uma recordação religiosa.

Um crucificado não tem que ser uma coisa bela de se ver. Isaías, ao profetizar o gesto redentor, refere que «diante dele se volta o rosto». A arte, neste caso, modela as palavras do profeta e propõe-nos um Cristo para quem não apetece olhar porque, no fundo, reconhecemos n’Ele a nossa própria miséria.

O que celebramos na Páscoa é, para além da dor, o mistério do amor e a vida nova do ressuscitado. O fruto da Páscoa deverá ser a alegria do discípulo que sente o abraço caloroso dum Pai que nos ama, dum Filho que se faz nosso irmão e do Espírito que nos renova. O testemunho da alegria deveria ser o distintivo do cristão.

Miguel Torga, peregrino num itinerário entre luzes e sombras, não fica indiferente perante a celebração dos mistérios cristãos e, a propósito do Domingo de Ramos, confidencia-nos: «Dia de Ramos. Como o catolicismo soube aproveitar as estações da natureza! É que não há ninguém, mesmo ateu, a quem não apeteça, numa manhã destas, ir ali à hortinha, cortar um galho, alçá-lo e caminhar assim, florido ao sol da Primavera!»

A semana santa evoca esta nossa vontade de encontro com o sentido da vida. As depressões sociais e os males que nos afligem não podem ser a palavra maior. A vida que renasce, a alegria com que se acena sob o sol da Primavera têm que gritar mais alto em cada um de nós.

Os rituais que marcam estes dias, celebrando os mistérios cristãos, são vias de acesso à vida transfigurada em Cristo Jesus. A Igreja propõe-nos a beleza da liturgia para, através dela, redescobrirmos os caminhos da nossa comunhão com Deus. Só aí encontraremos as razões da nossa esperança e uma plenitude não imaginada. O perigo é ficarmos no cumprimento dos preceitos, encarcerando os gestos de Jesus e hipotecando as nossas possibilidades de transfiguração. 
 
A grandiosa lição da Páscoa, contudo, é a descoberta do serviço aos outros como testemunho maior do amor. O Ressuscitado é o servo que lava os pés aos discípulos e que morre por eles na cruz. O amor aos outros, reflexo do amor que Jesus por nós, é o modo genuíno do cristão celebrar a Páscoa.
Jesus quer celebrar a sua Páscoa connosco; que renasça em nós uma renovada vontade de a celebrar com Ele. A todos, uma santa semana e uma Páscoa na alegria do ressuscitado!

P. Mário Tavares de Oliveira


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