PÓRTICO |20150313
É nítida a constatação da alergia que muitos meios
manifestam em relação à palavra caridade. Desvinculados da experiência da fé e
sem referências à praxis da Igreja, muitos teimam em relegar a caridade para um
território descaracterizado do seu verdadeiro sentido. Outros, inclusive, tudo
fazem para ridicularizar a palavra caridade e, por essa via, a acção da Igreja
junto dos mais necessitados.
Importa redescobrir o verdadeiro sentido da palavra caridade
que, na sua génese, não tem nada a ver com chazinhos nem com esmolas aos
pobrezinhos. A raiz e o sentido maior da palavra caridade tem a ver com a
verdadeira revolução antropológica que Jesus veio realizar na história ao
proclamar que «o que fizerdes ao mais pequenino, a mim o fazeis». As sagradas
escrituras estão inundadas de passagens que reflectem a ideia que o homem é
imagem de Deus e João Paulo II não se cansava de repetir que «o homem é o
caminho da Igreja».
Para o cristão, o amor ao próximo não é uma concessão aos
mais pobrezinhos. Isso seria a desvirtuação completa do amor. Só podemos amar o
próximo se o sentirmos “um outro”, um companheiro e um irmão. O cristão ama o
próximo porque reconhece no próximo a figura de Jesus. A isso chamamos
caridade. A caridade pressupõe igualdade, caminho feito em companhia,
disponibilidade em dar a vida porque «ninguém tem maior amor do que aquele que
dá a vida pelos amigos». A caridade leva-nos a reconhecer a maior dignidade que
o próximo pode ter: É imagem de Deus.
A cultura actual, enquanto tenta descaracterizar a palavra
caridade, impõe uma nova como alternativa: A solidariedade. Esta é devida a
todo o ser humano porque «toda a gente é pessoa» e, por isso, sujeito de
direitos e deveres. Sendo um princípio inquestionável, a verdade é que, com
frequência, manifesta uma total incapacidade de passar das belas palavras aos
actos. Não queremos generalizar porque há exemplos admiráveis de prácticas
sociais por parte de agentes fora do âmbito religioso, porém, a verdade é,
entre nós, cerca de 80% da acção social continua a ser feita pela Igreja, isto
é, por pessoas que fazem do exercício da caridade o motor da promoção social.
Que seria do nosso país sem a missão da Igreja no campo
social? Opinam muitos que é melhor ensinar a pescar do que dar um peixe. E
estaremos todos de acordo quanto a isso, porém, sendo verdadeiro o provérbio
chinês, o resultado é que, na maior parte das vezes, não se vê nem cana, nem
rio, nem peixe nas prácticas sociais de tão belos propósitos.
Se olharmos para os campeões do amor, João de Deus, Vicente
de Paulo, Madre Teresa de Calcutá, o que os moveu foi o terem vislumbrado a
presença de Jesus no irmão, no pobre e no abandonado. A caridade é fecunda e
não tem que envergonhar os cristãos. A caridade cumpre os fins da solidariedade
mas vai mais longe, ao reconhecer uma dignidade humana que faz do amor ao
próximo o seu segredo. Ao jeito de síntese, poderíamos dizer: A solidariedade
faz-nos sentir iguais, a caridade faz-nos descobrir que somos irmãos.
Nestes dias de Quaresma em que somos chamados à partilha dos
bens, revistamo-nos da caridade reconhecendo que os irmãos que morrem
perseguidos e martirizados são imagem de Cristo que continua a sofrer e a
morrer perante a indiferença global.
Padre Mário Tavares de Oliveira
Padre Mário Tavares de Oliveira
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