sexta-feira, 20 de março de 2015

RECONFIGURAR A IMAGEM DO PAI

PÓRTICO |20150320



O dia de São José é, tradicionalmente, o dia do Pai. Reveste-se de profundo significado que, mesmo numa sociedade tão secularizada que recusa toda a simbólica cristã, seja o dia de São José, o dia escolhido para celebrar o Pai. Quero ler, nas razões da escolha deste dia, a dimensão do mistério da vida que prevalece mesmo quando, biologicamente, a pretendemos explicar. Ser Pai será sempre muito mais do que um acto biológico.

A verdade, porém, é que se nos abstrairmos da poética que envolve as palavras neste dia de sentimentos genuínos, nem sempre a figura do Pai foi o que os poemas dizem. Em gerações muito próximas de nós, o pai assumia o carácter duma pessoa severa, rígida e implacável. O seu olhar transmitia um respeito que reclamava distância e se tratava por “Senhor”. Os afectos ficavam entregues aos cuidados da mãe. E quanto mais se subia na hierarquia social, mais as coisas eram assim. O Pai amava-se mais pelo respeito do que pela manifestação dos afectos.

Felizmente, a maior parte de nós guarda do seu pai uma imagem de ternura e carinho que continua a evocar uma memória agradecida pela experiência de Pai que tivemos. Hoje, porém, o ritmo da vida moderna dificulta essa experiência que se retém como importante para o nosso equilíbrio humano. De facto, cada vez há mais filhos a não conseguir vislumbrar na sua memória uma experiência grata de pai. As famílias desestruturadas e as novas pretensões de modelos familiares, em nada ajudam à experiência plena duma paternidade estruturante, tão importante para as novas gerações.

A religião também não facilitava. A imagem de Deus anunciada era a de um “pai terribilis”, severo e justiceiro que quase esmagava com a sua omnipotência. O medo moldava as relações e impunha uma obediência ritual. O próprio mistério cristão era desfigurado uma vez que, na Santíssima Trindade, ressaltava o Filho que nasceu em Belém e morreu na cruz e uma ténue memória do Espírito Santo. Muitos teólogos, com alguma razão, denunciam a fé demasiado “monoteísta” dos cristãos que nem sempre descobrem o rosto amoroso do Pai no mistério cristão. Bruno Forte, ilustre teólogo católico, denuncia que na experiência da fé, fomos buscar a Maria o rosto de ternura e de bondade que não conseguíamos vislumbrar na imagem do Pai que nos era apresentada. Também na religião, os afectos eram com a mãe.

De facto, na nossa experiência de fé, quando olhamos para o menino na ternura do presépio, na luz dos nossos olhos deveria brotar uma oração espontânea: “O Pai ama-me imensamente”. Ou quando olhamos para a cruz de Jesus Cristo, no seu excesso de amor por nós, deveríamos reconhecer, mais uma vez, que “o Pai ama-me imensamente”.

Não é possível olhar Jesus sem pressentir n’Ele o amor do Pai. Por isso, o cristianismo, sendo a religião do Filho, é também a religião do Pai. Em cada gesto de Jesus que cura, que abraça, que toca ou anuncia, está sempre a revelação dum amor escondido e que é o amor paterno. Descobrir uma fonte paternal no abraço do Filho à humanidade faz parte da sabedoria da nossa fé. Desse amor de comunhão infinita brota o Espírito que nos é dado e que actualiza o mistério do amor de Deus na história.


Celebrar o dia do Pai deveria deixar em nós um desafio essencial: Vamos reconfigurar a imagem do Pai. Na religião e na vida, o mistério do amor do Pai é o segredo que nos reconstrói em cada dia e nos referencia ao que vale a pena. Um rosto desfigurado de Pai, na religião e na vida, poderá ser uma via desconcertada, sempre propícia para todos os desencontros. 

Padre Mário Tavares de Oliveira

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