PÓRTICO
|20150320
O dia de São José é, tradicionalmente, o dia do Pai.
Reveste-se de profundo significado que, mesmo numa sociedade tão secularizada
que recusa toda a simbólica cristã, seja o dia de São José, o dia escolhido
para celebrar o Pai. Quero ler, nas razões da escolha deste dia, a dimensão do
mistério da vida que prevalece mesmo quando, biologicamente, a pretendemos
explicar. Ser Pai será sempre muito mais do que um acto biológico.
A verdade, porém, é que se nos abstrairmos da poética que
envolve as palavras neste dia de sentimentos genuínos, nem sempre a figura do
Pai foi o que os poemas dizem. Em gerações muito próximas de nós, o pai assumia
o carácter duma pessoa severa, rígida e implacável. O seu olhar transmitia um
respeito que reclamava distância e se tratava por “Senhor”. Os afectos ficavam
entregues aos cuidados da mãe. E quanto mais se subia na hierarquia social,
mais as coisas eram assim. O Pai amava-se mais pelo respeito do que pela
manifestação dos afectos.
Felizmente, a maior parte de nós guarda do seu pai uma
imagem de ternura e carinho que continua a evocar uma memória agradecida pela
experiência de Pai que tivemos. Hoje, porém, o ritmo da vida moderna dificulta
essa experiência que se retém como importante para o nosso equilíbrio humano.
De facto, cada vez há mais filhos a não conseguir vislumbrar na sua memória uma
experiência grata de pai. As famílias desestruturadas e as novas pretensões de
modelos familiares, em nada ajudam à experiência plena duma paternidade estruturante,
tão importante para as novas gerações.
A religião também não facilitava. A imagem de Deus anunciada
era a de um “pai terribilis”, severo e justiceiro que quase esmagava com a sua
omnipotência. O medo moldava as relações e impunha uma obediência ritual. O
próprio mistério cristão era desfigurado uma vez que, na Santíssima Trindade,
ressaltava o Filho que nasceu em Belém e morreu na cruz e uma ténue memória do
Espírito Santo. Muitos teólogos, com alguma razão, denunciam a fé demasiado
“monoteísta” dos cristãos que nem sempre descobrem o rosto amoroso do Pai no
mistério cristão. Bruno Forte, ilustre teólogo católico, denuncia que na
experiência da fé, fomos buscar a Maria o rosto de ternura e de bondade que não
conseguíamos vislumbrar na imagem do Pai que nos era apresentada. Também na
religião, os afectos eram com a mãe.
De facto, na nossa experiência de fé, quando olhamos para o
menino na ternura do presépio, na luz dos nossos olhos deveria brotar uma
oração espontânea: “O Pai ama-me imensamente”. Ou quando olhamos para a cruz de
Jesus Cristo, no seu excesso de amor por nós, deveríamos reconhecer, mais uma
vez, que “o Pai ama-me imensamente”.
Não é possível olhar Jesus sem pressentir n’Ele o amor do
Pai. Por isso, o cristianismo, sendo a religião do Filho, é também a religião
do Pai. Em cada gesto de Jesus que cura, que abraça, que toca ou anuncia, está
sempre a revelação dum amor escondido e que é o amor paterno. Descobrir uma
fonte paternal no abraço do Filho à humanidade faz parte da sabedoria da nossa
fé. Desse amor de comunhão infinita brota o Espírito que nos é dado e que
actualiza o mistério do amor de Deus na história.
Celebrar o dia do Pai deveria deixar em nós um desafio
essencial: Vamos reconfigurar a imagem do Pai. Na religião e na vida, o
mistério do amor do Pai é o segredo que nos reconstrói em cada dia e nos
referencia ao que vale a pena. Um rosto desfigurado de Pai, na religião e na
vida, poderá ser uma via desconcertada, sempre propícia para todos os
desencontros.
Padre Mário Tavares de Oliveira
Padre Mário Tavares de Oliveira
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