sábado, 25 de abril de 2015

EUROPA: QUE FIZESTE AO TEU IRMÃO?

PÓRTICO |20150424


Há muito tempo que o Mediterrâneo é palco duma gravíssima situação humanitária. De muitas regiões da África, acorrem migrações em massa que se congregam na costa sul do Mediterrâneo na esperança duma oportunidade de embarcar para Europa. A estes, ultimamente, juntam-se os perseguidos do auto-proclamado estado islâmico por razões religiosas ou, simplesmente, os que fogem aos cenários de guerra.

O pecado grave de roda esta gente é o derradeiro esforço de quem luta pela dignidade da sobrevivência. Só querem viver. Lá, donde vêem, a instabilidade impede as condições mínimas a que isso aconteça.

As instituições humanitárias, há muito, vêem chamando a atenção para este flagelo mas os organismos europeus têm ignorado ou tratado com total displicência esta chaga social. As respostas dadas até agora são paliativos genéricos que lançam apreensões profundas quanto aos efeitos pretendidos.

Este ano, mais de 1500 pessoas morreram no Mar Mediterrâneo, um número 50 vezes superior ao de 2014, com destaque para o naufrágio que vitimou cerca de 800 pessoas no último domingo. Num só ano, o número dos que encontraram a morte no Mediterrâneo subiu para níveis impensáveis e que ferem os valores essenciais da nossa civilização. Tocou o alarme e os organismos europeus reuniram-se de emergência.

A solução que parece estar a desenhar-se, todavia, é a de repatriar a maioria esmagadora dos refugiados e desenvolver esforços para impedir que embarquem o menos possível em direcção aos portos da costa europeia. A apreensão é que quanto mais a Europa ajudar, mais embarcarão no futuro, por isso, o caminho é a repressão a todo o custo para impedir mais refugiados e náufragos.

As soluções que se vão anunciando são desumanas, hipócritas e ineficazes. Claramente, a Europa vai ter de se enfrentar com este problema. A Europa do bem-estar está rodeada de continentes famintos e de povoações em desespero. A tentação da fuga é inevitável e será cada vez maior. Acresce que o velho Continente está desgastado demograficamente e não mostra sinais de regeneração. Quanto mais tentar remendar a situação, maior será o rasgão. Imaginar que repatriar e patrulhar mais a costa vai resolver o problema é pura ilusão.

Desde o início do seu pontificado, o Papa Francisco não tem deixado de clamar perante os responsáveis, denunciando a terrível tragédia que tem transformado o Mediterrâneo num cemitério. Ele mesmo visitou Lampeduza e, no ano passado, proclamou como jornada das lágrimas o dia em que naufragaram mais 400 vítimas que tentavam chegar ao Sul de Itália. O Papa tem sido um intrépido profeta a denunciar a indiferença das autoridades europeias.

Agora, um conjunto de organizações da Igreja Católica em Portugal manifestou a sua “consternação e indignação” face a estes trágicos acontecimentos: Agência ECCLESIA, Cáritas Portuguesa, Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal (CIRP), Comissão Nacional Justiça e Paz, Comissão Nacional Justiça, Paz e Ecologia dos Religiosos, Departamento Nacional da Pastoral Juvenil, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, Obra Católica Portuguesa de Migrações, Rádio Renascença e Serviço Jesuíta aos Refugiados fazendo eco das inquietações do Papa Francisco, apelam a todos os portugueses para que, no próximo Domingo, coloquem nas suas janelas um lenço branco ou usem uma peça de roupa branca, numa “manifestação de indignação”.
Que a Europa dos valores e da Liberdade saiba reencontrar um suplemento de alma que lhe permita enfrentar esta questão com humanismo e respeito pelos mais frágeis. Trata-se duma verdadeira prova à civilização europeia. Que o egoísmo não faça desmoronar os caminhos da solidariedade.
Padre Mário Tavares de Oliveira


  

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