PÓRTICO |20150424
Há
muito tempo que o Mediterrâneo é palco duma gravíssima situação humanitária. De
muitas regiões da África, acorrem migrações em massa que se congregam na costa
sul do Mediterrâneo na esperança duma oportunidade de embarcar para Europa. A
estes, ultimamente, juntam-se os perseguidos do auto-proclamado estado islâmico
por razões religiosas ou, simplesmente, os que fogem aos cenários de guerra.
O
pecado grave de roda esta gente é o derradeiro esforço de quem luta pela
dignidade da sobrevivência. Só querem viver. Lá, donde vêem, a instabilidade
impede as condições mínimas a que isso aconteça.
As
instituições humanitárias, há muito, vêem chamando a atenção para este flagelo
mas os organismos europeus têm ignorado ou tratado com total displicência esta
chaga social. As respostas dadas até agora são paliativos genéricos que lançam
apreensões profundas quanto aos efeitos pretendidos.
Este ano,
mais de 1500 pessoas morreram no Mar Mediterrâneo, um número 50 vezes superior
ao de 2014, com destaque para o naufrágio que vitimou cerca de 800 pessoas no
último domingo. Num só ano, o número dos que encontraram a morte no
Mediterrâneo subiu para níveis impensáveis e que ferem os valores essenciais da
nossa civilização. Tocou o alarme e os organismos europeus reuniram-se de
emergência.
A solução
que parece estar a desenhar-se, todavia, é a de repatriar a maioria esmagadora
dos refugiados e desenvolver esforços para impedir que embarquem o menos
possível em direcção aos portos da costa europeia. A apreensão é que quanto
mais a Europa ajudar, mais embarcarão no futuro, por isso, o caminho é a
repressão a todo o custo para impedir mais refugiados e náufragos.
As soluções
que se vão anunciando são desumanas, hipócritas e ineficazes. Claramente, a
Europa vai ter de se enfrentar com este problema. A Europa do bem-estar está
rodeada de continentes famintos e de povoações em desespero. A tentação da fuga
é inevitável e será cada vez maior. Acresce que o velho Continente está
desgastado demograficamente e não mostra sinais de regeneração. Quanto mais
tentar remendar a situação, maior será o rasgão. Imaginar que repatriar e
patrulhar mais a costa vai resolver o problema é pura ilusão.
Desde o
início do seu pontificado, o Papa Francisco não tem deixado de clamar perante
os responsáveis, denunciando a terrível tragédia que tem transformado o
Mediterrâneo num cemitério. Ele mesmo visitou Lampeduza e, no ano passado,
proclamou como jornada das lágrimas o dia em que naufragaram mais 400 vítimas
que tentavam chegar ao Sul de Itália. O Papa tem sido um intrépido profeta a
denunciar a indiferença das autoridades europeias.
Agora, um conjunto de organizações da Igreja Católica em
Portugal manifestou a sua “consternação e indignação” face a estes trágicos
acontecimentos: Agência ECCLESIA, Cáritas Portuguesa, Conferência dos
Institutos Religiosos de Portugal (CIRP), Comissão Nacional Justiça e Paz,
Comissão Nacional Justiça, Paz e Ecologia dos Religiosos, Departamento Nacional
da Pastoral Juvenil, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, Obra Católica
Portuguesa de Migrações, Rádio Renascença e Serviço Jesuíta aos Refugiados
fazendo eco das inquietações do Papa Francisco, apelam a todos os portugueses
para que, no próximo Domingo, coloquem nas suas janelas um lenço branco ou usem
uma peça de roupa branca, numa “manifestação de indignação”.
Que a Europa dos valores e da Liberdade saiba reencontrar
um suplemento de alma que lhe permita enfrentar esta questão com humanismo e
respeito pelos mais frágeis. Trata-se duma verdadeira prova à civilização
europeia. Que o egoísmo não faça desmoronar os caminhos da solidariedade.
Padre Mário Tavares de Oliveira
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