sábado, 11 de abril de 2015

PÁSCOA PARA QUÊ?

PÓRTICO |20150410



Uma das pretensões da cultura laica é remeter a experiência religiosa para a esfera do privado, para o interior do templo e para a consciência de cada um. Numa palavra, quem quiser ser religioso, que o seja mas no seu foro íntimo para não perturbar nem ferir a cultura circundante. Por isso se retiram os crucifixos dos lugares públicos, se pretendem apagar as raízes cristãs da Europa e se vão pondo em questão muitas das tradições que conferem um rosto à nossa civilização.

As festas cristãs são cada vez mais vistas pelo seu lado cultural e quando são valorizadas é, normalmente, pela vertente do turismo e dos dividendos económicos que elas possam trazer a uma cidade ou a uma região. A sua autenticidade é esquecida e desvirtuadas as mais genuínas tradições cristãs.

O caso da festa da Páscoa é um sintoma claro do processo da debilitação da sua mensagem. O mundo não se dá conta do que está em questão com a celebração da Páscoa.

Páscoa quer dizem passagem e imprime um espírito de mudança à história. A Páscoa começou por ser uma grande libertação do povo Egipto, onde estava oprimido pelo poder dos mais fortes. Foi uma libertação política, económica, social e religiosa. A Páscoa do Egipto foi uma libertação plena. Por isso, refere o livro dos Génesis, que nunca mais o povo de Israel deixou de celebrar a Páscoa.

Por sua vez, Jesus Cristo vem celebrar a nova Páscoa. A sua morte na Cruz é a morte da morte e a celebração da nova e eterna aliança. Assume a história da humanidade caída para a reerguer pelo poder do amor. Ressuscitando, dá corpo à esperança e abre o caminho da humanização da história e da descoberta do outro como via de salvação. Na cruz de Jesus nada do que é humano fica de fora. Nela, vemo-nos retractados e denunciados mas, ao mesmo tempo, libertos e redimensionados.

Remeter a Páscoa para o foro do religioso pretendendo limitar o seu horizonte e atrofiar a sua verdade constituem uma enorme perda para o homem e para a humanidade.

À nossa volta superabundam os sinais evidentes da necessidade urgente da Páscoa. Avolumam-se os cativeiros, ganham vantagem os poderes dos mais fortes que oprimem impiedosamente os mais frágeis, sobe de tom o drama da solidão que ganha novas expressões quer entre os idosos quer entre os jovens. O débito da esperança esmaga-nos e sentimos que, de dia para dia, tudo vai ficando mais comprometido e sem razões para a confiança.

Foi precisamente este o quadro que provocou Deus a vir celebrar a sua Páscoa com o seu povo. A passagem de Deus pelo acampamento dos israelitas mudou o sentido da sua história. O gesto de Jesus transformou completamente a vida dos discípulos que O seguiram.

Ao desvalorizar a verdade íntima da Páscoa relegando-a para o templo e ao silenciar a sua poderosa mensagem, o mundo recusa a possibilidade da sua própria mudança, a regeneração da civilização e o reencontro com os horizontes de esperança da sua história. A “Era do vazio” profetizada por Gilles Lipovetsky revela os seus sinais no estilo de vida da nossa sociedade, marcada pelo individualismo auto-destrutivo.

Só um evento da dimensão da Páscoa cristã poderá conferir novos horizontes à história porque não ilude as verdadeiras questões do homem nem esquece nada do que é humano. O pior que poderia acontecer à nossa civilização seria morrer de sede junto à fonte. Cabe aos cristãos, pelo seu testemunho de vida, anunciar a alegria da libertação e da salvação em Cristo em Jesus. O mundo precisa de Páscoa; não viremos as costas ao nosso dever anunciar a salvação.

Padre Mário Tavares de Oliveira



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