PÓRTICO |20150410
Uma das pretensões da cultura laica é remeter a experiência
religiosa para a esfera do privado, para o interior do templo e para a
consciência de cada um. Numa palavra, quem quiser ser religioso, que o seja mas
no seu foro íntimo para não perturbar nem ferir a cultura circundante. Por isso
se retiram os crucifixos dos lugares públicos, se pretendem apagar as raízes
cristãs da Europa e se vão pondo em questão muitas das tradições que conferem
um rosto à nossa civilização.
As festas cristãs são cada vez mais vistas pelo seu lado
cultural e quando são valorizadas é, normalmente, pela vertente do turismo e
dos dividendos económicos que elas possam trazer a uma cidade ou a uma região.
A sua autenticidade é esquecida e desvirtuadas as mais genuínas tradições
cristãs.
O caso da festa da Páscoa é um sintoma claro do processo da
debilitação da sua mensagem. O mundo não se dá conta do que está em questão com
a celebração da Páscoa.
Páscoa quer dizem passagem e imprime um espírito de mudança
à história. A Páscoa começou por ser uma grande libertação do povo Egipto, onde
estava oprimido pelo poder dos mais fortes. Foi uma libertação política,
económica, social e religiosa. A Páscoa do Egipto foi uma libertação plena. Por
isso, refere o livro dos Génesis, que nunca mais o povo de Israel deixou de
celebrar a Páscoa.
Por sua vez, Jesus Cristo vem celebrar a nova Páscoa. A sua
morte na Cruz é a morte da morte e a celebração da nova e eterna aliança.
Assume a história da humanidade caída para a reerguer pelo poder do amor. Ressuscitando,
dá corpo à esperança e abre o caminho da humanização da história e da
descoberta do outro como via de salvação. Na cruz de Jesus nada do que é humano
fica de fora. Nela, vemo-nos retractados e denunciados mas, ao mesmo tempo,
libertos e redimensionados.
Remeter a Páscoa para o foro do religioso pretendendo
limitar o seu horizonte e atrofiar a sua verdade constituem uma enorme perda
para o homem e para a humanidade.
À nossa volta superabundam os sinais evidentes da
necessidade urgente da Páscoa. Avolumam-se os cativeiros, ganham vantagem os
poderes dos mais fortes que oprimem impiedosamente os mais frágeis, sobe de tom
o drama da solidão que ganha novas expressões quer entre os idosos quer entre
os jovens. O débito da esperança esmaga-nos e sentimos que, de dia para dia,
tudo vai ficando mais comprometido e sem razões para a confiança.
Foi precisamente este o quadro que provocou Deus a vir
celebrar a sua Páscoa com o seu povo. A passagem de Deus pelo acampamento dos
israelitas mudou o sentido da sua história. O gesto de Jesus transformou
completamente a vida dos discípulos que O seguiram.
Ao desvalorizar a verdade íntima da Páscoa relegando-a para
o templo e ao silenciar a sua poderosa mensagem, o mundo recusa a possibilidade
da sua própria mudança, a regeneração da civilização e o reencontro com os
horizontes de esperança da sua história. A “Era do vazio” profetizada por Gilles Lipovetsky revela os seus sinais no estilo
de vida da nossa sociedade, marcada pelo individualismo auto-destrutivo.
Só um
evento da dimensão da Páscoa cristã poderá conferir novos horizontes à história
porque não ilude as verdadeiras questões do homem nem esquece nada do que é
humano. O pior que poderia acontecer à nossa civilização seria morrer de sede
junto à fonte. Cabe aos cristãos, pelo seu testemunho de vida, anunciar a
alegria da libertação e da salvação em Cristo em Jesus. O mundo precisa de
Páscoa; não viremos as costas ao nosso dever anunciar a salvação.
Padre Mário Tavares de Oliveira
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