PÓRTICO|20150417
Estamos habituados a que os dias tenham 24 horas e que as
horas tenham 60 minutos. O tempo emoldura as nossas vivências e acorrenta-nos
de modo implacável. A Páscoa ensina-nos a recuperar a liberdade interior que
está para além das medidas humanas e dos nossos conceitos apertados.
Tentando exprimir o mistério da Páscoa que se revela para
além dos dias, Santo Agostinho refere-se à Páscoa como um Domingo de 50 dias. O
santo de Hipona convida-nos, assim, a mergulhar no infinito mistério que nos
faz passar da nossa lógica humana para a lógica divina onde o amor é a forma de
Deus.
No nosso último Pórtico, dizíamos que o mundo, na sua
azáfama, nem se dá conta da beleza da Páscoa e da sua importância para a nossa
convivência humana. Marcado pela cultura da exterioridade e do visibilismo, o
mundo cultiva o transitório e o fugaz revelando uma real incapacidade de
interioridade. A futilidade marca as opções da modernidade e os perigos que daí
advêm são reais.
Joan Chittister, religiosa norte-americana, no seu livro O Sopro da Vida Interior chama a atenção
para esta tentação dos nossos tempos: «Vivemos num mundo que nos puxa,
constantemente, para fora de nós, para substituir a vida interior pela
realidade virtual. Agora vivemos a vida de outras pessoas – as personagens das
telenovelas, das celebridades dos programas de entretenimento, os heróis do
desporto, etc… A vida interior é coisa do passado ou, pelo menos, não nos deixa
muito confortáveis».
Precisamos de reaprender os caminhos da interioridade. Só no
nosso íntimo, na verdade mais profunda que há em nós, nos podemos aperceber do
grandioso mistério da Páscoa. A nossa intimidade é o território onde o céu se
une à terra e o tempo entre na eternidade. Lá, o nosso caos é recomposto pelo
sopro de Deus e o nosso passado é redimido pelo seu amor. Só, então, poderemos
compreender a importância de Deus na nossa vida e como é essencial que Ele
tenha dado a vida por nós.
Na semana passada, dois jovens da nossa Diocese
consagraram-se a Deus. A Irmã Maria Helena de Jesus, como monja concepcionistas
e o Irmão Nuno Antunes como sacerdote na família religiosa dos Pequenos Filhos
da Mãe de Deus. Jovens que tiveram a ousadia de cultivar o dom de Deus, que
aprenderam a preencher o seu coração com a suavidade do seu dom em vez de
preencher o seu íntimo com o caos que existe fora de nós. Por isso, não
hesitaram a sacrificar projectos, a sublimar apelos e afectos por mais genuínos
que fossem, para seguir a Voz Interior que se revelava na sua violentíssima
ternura.
Olhar a Páscoa não como um dia mas como um tempo é abraçar o
desejo que o amor de Deus se entranhe no nosso íntimo, como orvalho da manhã, e
nos modele segundo a sua sabedoria. Precisamos tanto desta experiência: Viver em estado de Páscoa! Sem
ela, ficaremos frenéticos à espera do próximo feriado, da próxima diversão ou do próximo pretexto
que suscite os nossos sentidos, cultivando o caos interior, cada vez mais
angustiado e depressivo.
Precisamos de Páscoa, da coragem da mudança e de
mergulharmos na interioridade do Espírito que renova todas as coisas.
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