quinta-feira, 16 de abril de 2015

REAPRENDER OS CAMINHOS DA INTERIORIDADE!

PÓRTICO|20150417


Estamos habituados a que os dias tenham 24 horas e que as horas tenham 60 minutos. O tempo emoldura as nossas vivências e acorrenta-nos de modo implacável. A Páscoa ensina-nos a recuperar a liberdade interior que está para além das medidas humanas e dos nossos conceitos apertados.

Tentando exprimir o mistério da Páscoa que se revela para além dos dias, Santo Agostinho refere-se à Páscoa como um Domingo de 50 dias. O santo de Hipona convida-nos, assim, a mergulhar no infinito mistério que nos faz passar da nossa lógica humana para a lógica divina onde o amor é a forma de Deus.

No nosso último Pórtico, dizíamos que o mundo, na sua azáfama, nem se dá conta da beleza da Páscoa e da sua importância para a nossa convivência humana. Marcado pela cultura da exterioridade e do visibilismo, o mundo cultiva o transitório e o fugaz revelando uma real incapacidade de interioridade. A futilidade marca as opções da modernidade e os perigos que daí advêm são reais.

Joan Chittister, religiosa norte-americana, no seu livro O Sopro da Vida Interior chama a atenção para esta tentação dos nossos tempos: «Vivemos num mundo que nos puxa, constantemente, para fora de nós, para substituir a vida interior pela realidade virtual. Agora vivemos a vida de outras pessoas – as personagens das telenovelas, das celebridades dos programas de entretenimento, os heróis do desporto, etc… A vida interior é coisa do passado ou, pelo menos, não nos deixa muito confortáveis».

Precisamos de reaprender os caminhos da interioridade. Só no nosso íntimo, na verdade mais profunda que há em nós, nos podemos aperceber do grandioso mistério da Páscoa. A nossa intimidade é o território onde o céu se une à terra e o tempo entre na eternidade. Lá, o nosso caos é recomposto pelo sopro de Deus e o nosso passado é redimido pelo seu amor. Só, então, poderemos compreender a importância de Deus na nossa vida e como é essencial que Ele tenha dado a vida por nós.

Na semana passada, dois jovens da nossa Diocese consagraram-se a Deus. A Irmã Maria Helena de Jesus, como monja concepcionistas e o Irmão Nuno Antunes como sacerdote na família religiosa dos Pequenos Filhos da Mãe de Deus. Jovens que tiveram a ousadia de cultivar o dom de Deus, que aprenderam a preencher o seu coração com a suavidade do seu dom em vez de preencher o seu íntimo com o caos que existe fora de nós. Por isso, não hesitaram a sacrificar projectos, a sublimar apelos e afectos por mais genuínos que fossem, para seguir a Voz Interior que se revelava na sua violentíssima ternura.

Olhar a Páscoa não como um dia mas como um tempo é abraçar o desejo que o amor de Deus se entranhe no nosso íntimo, como orvalho da manhã, e nos modele segundo a sua sabedoria. Precisamos tanto desta experiência: Viver em estado de Páscoa! Sem ela, ficaremos frenéticos à espera do próximo feriado, da próxima diversão ou do próximo pretexto que suscite os nossos sentidos, cultivando o caos interior, cada vez mais angustiado e depressivo.

Precisamos de Páscoa, da coragem da mudança e de mergulharmos na interioridade do Espírito que renova todas as coisas.  


Padre Mário Tavares de Oliveira

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