PÓRTICO|20150508
Tem subido de intensidade o desejo de peregrinar. A
mobilidade é uma das características da modernidade mas o apelo a peregrinar
tem raízes mais profundas e não se esgota nas possibilidades da actual cultura
da mobilidade.
Vem de longe o desejo de trilhar caminhos ao encontro dos
lugares sagrados. A revelação bíblica relata-nos uma história dum povo
peregrino. O povo de Israel pode ser definido como um povo em caminho. Atraído
por uma “voz do alto”, vence todas as barreiras e faz da esperança da pátria o
grande sentido da sua vida. Jerusalém torna-se cidade santa, lugar de subidas e
de celebração das memórias.
Logo nas origens da cristandade, desenvolveu-se também o
espírito de peregrinar à Terra Santa, em particular a Jerusalém. Outros lugares
de peregrinação foram surgindo ao ritmo das manifestações do sagrado. Santiago
de Compostela assume o desígnio de destino comum onde o ideal de cristandade se
vai forjando através dum movimento de peregrinos que trilham caminhos como
autênticos capilares da experiência da fé cristã.
O século XX, entre nós, é marcado pelas aparições de Fátima.
Sem que ninguém tivesse decretado, as multidões começaram a afluir de todos os
lugares conferindo à Cova da Iria o carácter de “altar do mundo”. Hoje, Fátima
caracteriza-se pelas grandes assembleias internacionais que exprimem, na sua
diversidade, uma vontade comum de estar juntos, unidos pela mesma fé. Esta é a
força da religião: Une, congrega, cria laços, faz-nos cantar a uma só voz e
reacende a chama da esperança.
Muitos não resistem ao forte apelo de peregrinar a pé.
Nestes dias, as estradas de Portugal transformam-se em rotas de fé e, aos
milhares, os peregrinos, pelos mais diversos motivos, dirigem-se para a Cova da
Iria: Vão aflitos, implorar graças impossíveis; vão agradecidos entoar louvores
ao céu; vão pelo espírito de peregrinar; vão rezar pelos males da humanidade;
simplesmente…vão.
O que impressiona nestas multidões que peregrinam a Fátima é
que a grande maioria não tem uma práctica cristã muito intensa: Uns por falta
de instrução religiosa, outros por desilusões face à Igreja como instituição,
outros por indiferença espiritual. Todavia, Fátima faz ultrapassar todos os
obstáculos duma experiência de fé desintegrada. A caminho da Cova da Iria,
rezam, cantam, confessam-se, emocionam-se, reencontram-se.
Convergindo dos quatro pontos cardeais, os peregrinos
revelam algo que nos habita no mais fundo de nós mesmo: Uma vontade
irresistível de partir, de ir para além, de alcançar metas longínquas. Neste
gesto, sinaliza-se a vida como um “ir sempre mais além” nos caminhos da
transcendência.
Ao mesmo tempo, peregrinar é ir ao mais profundo de nós
mesmos, é percorrer um caminho interior e abraçar uma vontade de purificação.
Peregrinar é caminhar para uma meta longínqua e partir ao encontro de nós
mesmos. E fazêmo-lo com os outros. Denis Vasse, denunciava, no coração do
século XX, que o drama da nossa sociedade era a incapacidade de vivermos sós e
de vivermos uns com os outros. O fluxo dos peregrinos parece querer desmentir
esta apreensão: É como povo em êxodo que queremos ir mais longe e ao mais
íntimo de nós mesmos. É ao lado uns dos outros que queremos celebrar a alegria
da chegada e partilhar o que melhor temos dentro de nós.
Por estes dias, sintamo-nos irmanados ao espírito de quem
peregrina. Mesmo no nosso lar, reencontremos os caminhos do nosso santuário
onde o sentido da vida se renova e onde redescobrimos os laços que nos
unem.
Padre Mário Tavares de Oliveira
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