sábado, 16 de maio de 2015

SEMANA DA VIDA

PÓRTICO| 20150515


De 10 a 17 de Maio decorre a Semana da Vida. Este deveria ser um tema óbvio e pacífico mas, no entanto, está longe de ser uma questão consensual.

A vida é um dom que se recebe e reparte. Por sua índole própria, vida gera vida e participa do grande banquete que é a Criação. Somos corresponsáveis no processo da vida onde pressentimos um mistério maior do que nós mesmos e um desígnio de transcendência que nos ultrapassa.

Neste processo, a abertura ao outro é o fecundo segredo que faz da vida uma festa que surpreende e nos abre à descoberta das belezas que compõem a sua alma e o seu ser mais íntimo. No entanto, nos caminhos do nosso viver em sociedade, o egoísmo tem vindo a substituir o lugar do outro e vamos edificando modos de ser cada vez mais egocêntricos e encerrados nos interesses próprios. O egoísmo hipoteca o sentido maior da vida e compromete a sua razão de ser.

O resultado é o desenvolvimento da cultura da morte que, paradoxalmente, se vem impondo de modo implacável e progressivo. Matar seres humanos indefesos passou a ser sinal de progresso; abreviar a vida aos idosos em fase terminal passou a ser sinal de humanismo; as uniões gays passaram a ser vistas como caminhos libertadores e a morte em cenários de perseguição ou de indigência extrema é encarada como uma inevitabilidade.

A vida é a questão central do nosso viver em sociedade. Mais que os problemas económicos ou políticos, geo-estratégicos ou culturais, a questão da vida suplanta todos os temas e exige um olhar urgente que leve a novas opções.

Há poucos dias, fui fazer um funeral a uma aldeia alentejana onde nunca tinha ido. Ao chegar, apreciei a harmonia do seu traçado, a limpeza das ruas e as condições de vida. Tinha estruturas sociais modernas, fruto dos investimentos das últimas décadas e do trabalho da Autarquia e da Junta de Freguesia. Num encontro fortuito com o presidente da Junta de freguesia, não resisti a dar-lhe os parabéns pela sua linda terra. Ao agradecer, surgiu natural a sua angústia: “-Mas daqui a vinte anos, senhor padre, para quem será esta aldeia ideal? Aqui a viver já há pouco mais de 150 pessoas e a grande maioria tem mais de sessenta anos. Quase não há crianças. Os poucos jovens fogem daqui. O que vai ser disto?”

Vivemos neste paradoxo: estamos a construir um mundo maravilhoso para ninguém! Nunca houve tantas condições de vida, tantas estruturas sociais e culturais. Mas…falta vida! Em cada ano que passa, estamos imensamente mais pobres porque há menos vidas a dar corpo aos nossos ideais.

A responsabilidade é de todos: Das políticas sociais e de natalidade, das políticas económicas e laborais, do urbanismo e das ideologias mas, sobretudo das famílias que são o veículo natural da vida.
A situação presente exige uma cultura de responsabilidade a todos. Ninguém pode ficar de fora deste processo que se assume, cada vez mais, como uma questão de vida ou de morte. Se queremos que seja de vida, urge trilhar novos caminhos onde a sua dignificação não seja instrumentalizada por poderes mesquinhos mas, antes, abraçada com entusiasmo.


Nesta Semana da vida, olhemos de frente esta questão maior da nossa convivência em sociedade.

Padre Mário Tavares de Oliveira

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