PÓRTICO| 20150515
De 10 a 17 de Maio decorre a Semana da Vida. Este deveria
ser um tema óbvio e pacífico mas, no entanto, está longe de ser uma questão
consensual.
A vida é um dom que se recebe e reparte. Por sua índole
própria, vida gera vida e participa do grande banquete que é a Criação. Somos
corresponsáveis no processo da vida onde pressentimos um mistério maior do que
nós mesmos e um desígnio de transcendência que nos ultrapassa.
Neste processo, a abertura ao outro é o fecundo segredo que
faz da vida uma festa que surpreende e nos abre à descoberta das belezas que
compõem a sua alma e o seu ser mais íntimo. No entanto, nos caminhos do nosso
viver em sociedade, o egoísmo tem vindo a substituir o lugar do outro e vamos
edificando modos de ser cada vez mais egocêntricos e encerrados nos interesses
próprios. O egoísmo hipoteca o sentido maior da vida e compromete a sua razão
de ser.
O resultado é o desenvolvimento da cultura da morte que,
paradoxalmente, se vem impondo de modo implacável e progressivo. Matar seres
humanos indefesos passou a ser sinal de progresso; abreviar a vida aos idosos
em fase terminal passou a ser sinal de humanismo; as uniões gays passaram a ser
vistas como caminhos libertadores e a morte em cenários de perseguição ou de
indigência extrema é encarada como uma inevitabilidade.
A vida é a questão central do nosso viver em sociedade. Mais
que os problemas económicos ou políticos, geo-estratégicos ou culturais, a
questão da vida suplanta todos os temas e exige um olhar urgente que leve a
novas opções.
Há poucos dias, fui fazer um funeral a uma aldeia alentejana
onde nunca tinha ido. Ao chegar, apreciei a harmonia do seu traçado, a limpeza
das ruas e as condições de vida. Tinha estruturas sociais modernas, fruto dos
investimentos das últimas décadas e do trabalho da Autarquia e da Junta de
Freguesia. Num encontro fortuito com o presidente da Junta de freguesia, não
resisti a dar-lhe os parabéns pela sua linda terra. Ao agradecer, surgiu
natural a sua angústia: “-Mas daqui a vinte anos, senhor padre, para quem será
esta aldeia ideal? Aqui a viver já há pouco mais de 150 pessoas e a grande
maioria tem mais de sessenta anos. Quase não há crianças. Os poucos jovens
fogem daqui. O que vai ser disto?”
Vivemos neste paradoxo: estamos a construir um mundo
maravilhoso para ninguém! Nunca houve tantas condições de vida, tantas
estruturas sociais e culturais. Mas…falta vida! Em cada ano que passa, estamos
imensamente mais pobres porque há menos vidas a dar corpo aos nossos ideais.
A situação presente exige uma cultura de responsabilidade a
todos. Ninguém pode ficar de fora deste processo que se assume, cada vez mais,
como uma questão de vida ou de morte. Se queremos que seja de vida, urge
trilhar novos caminhos onde a sua dignificação não seja instrumentalizada por
poderes mesquinhos mas, antes, abraçada com entusiasmo.
Nesta Semana da vida, olhemos de frente esta questão maior
da nossa convivência em sociedade.
Padre Mário Tavares de Oliveira
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