Há títulos de obras que têm o condão
de revelar o espírito dum tempo e os clamores duma geração. O título do romance
de Milan Kundera, A Insustentável Leveza
do Ser, muito desvirtuado na sua adaptação cinematográfica, é uma magnífica
chave de leitura para os tempos que correm. Vivemos tempos de ligeireza,
superficialidade e de um vazio perturbador.
Está o país a viver momentos de
grande gravidade e de complexidade extrema. Estamos ainda no epicentro duma
crise que afectou os tecidos social e económico como não há memória, arrastando
consigo um tremendo débito de esperança e uma apreensão que sufoca. E, no
entanto, a contrastar com o cenário pesado que nos envolve, os nossos
responsáveis primam por um confrangedor vazio de ideias e uma leveza de
propostas que tornam ainda mais denso o nosso presente.
Na semana passada, o debate
televisivo havido entre os dois principais líderes políticos que se apresentam
como candidatos a Primeiro Ministro nas próximas eleições foi a comprovação disto
mesmo. Há meses que andamos a ouvir o mesmo por parte destes protagonistas e
pelas forças que representam. Um debate que foi anunciado como decisivo e a que
não faltou um marketing persuasivo, redundou numa enfadonha maré de recados já
dados e numa maçadora troca de argumentos requentados. Chega a ser angustiante a aridez de ideias, a
ausência de perspectivas credíveis e falta de consistência nas propostas
apresentadas. A leveza das ideias começa a ser, de facto, insustentável.
O problema não seria grave se
tivesse sido um momento passageiro ou um debate mal conseguido por parte dos
candidatos. Já estaria esquecido a esta hora. Porém, tudo fica ainda mais
cinzento se olharmos para a generalidade do debate entre todas as forças
políticas que pretendem propor uma solução para os portugueses. É nítida uma
esquizofrenia argumenteira que não consegue sair de dois ou três temas que já
não se suportam mas que cada candidato acha ser o ponto débil do outro
candidato, apontando para aí todas as baterias. Confunde-se a estrada da Beira
com a beira da estrada e pretende-se que o periférico adquira o estatuto do
essencial. É insustentável! Começa a ser...insuportável!
A crise das ideologias que se abateu
sobre nós depois dos anos setenta, foi só o sintoma duma mudança epocal que,
pelos vistos, está para ficar para o bem e para o mal. Neste caso, para o mal.
As ideias cederam o lugar aos pragmatismos; os olhares largos que projectavam o
futuro foram aniquilados pelos imediatismos; os valores que pautavam o nosso
viver em sociedade foram superados pela insaciável vontade do lucro que não
olha a meios e do prazer hedonista perspectivado pelo império do egoísmo.
A ditadura do economicismo relega
para segundo plano o quadro de valores que está na base dum humanismo positivo,
capaz de conferir dignidade ao homem e à sua história. A fúria dos números
atropela as nossas possibilidades de convivência feliz. Os reais problemas
deixaram de inquietar para que a questão económica seja a grande fonte de preocupação.
A Europa e o mundo vivem problemas
gravíssimos, o nosso país tem um dos índices mais baixos de natalidade a nível
mundial, as novas gerações sentem hipotecado o seu futuro, o desemprego é
dramático, a mobilidade humana é um desafio crucial, a educação é uma batalha
que estamos a perder, a saúde é um bem ameaçado mas... a grande preocupação das
propostas apresentadas parece ser o controlo sobre umas décimas do défice ou a
reposição de mais uns euros no subsídio de férias para tentar fazer melhor
figura que o adversário e assim amealhar mais uns votos. É pouco...muito pouco!
Convenhamos: A hora que vivemos
exigiria líderes políticos mais ilustrados e responsáveis e mais à altura dos
desafios que temos à nossa frente. À falta da capacidade desejada, tentam
embalar-nos ao sabor das conjuncturas macro-econónimas e à boleia dos grandes
interesses das potências dominantes. A questão é saber se há forma de sairmos
deste círculo vicioso. Não podemos deixar que o fatalismo do abismo nos paralise.
Mas não se fique com a impressão que
vivo horas de pessimismo ou de angústias insanáveis. Felizmente, o nosso povo
continua a dar provas que está vivo. E é neste desígnio de gente a que pertenço
que me quero enquadrar. Nas horas
difíceis sempre o nosso povo soube erguer a sua voz e reconstruir os nossos
ideais com letra grande. E, mais uma vez, em tempos tão difíceis, temos sabido
resistir com responsabilidade e estamos a reagir com criatividade. A minha
esperança é uma espécie de crença na alma do povo que não desilude nos momentos
decisivos.
Vem-me à mente uma quadra de António
Aleixo que me parece lapidar e que, por estes dias, me tem feito bem:
Ó vós que do alto império
Prometeis um mundo novo
Calai-vos! porque pode o povo
Querer um mundo novo a sério.
P. Mário
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