sábado, 19 de dezembro de 2015

PORTAS ABERTAS À MISERICÓRDIA


PÓRTICO|20151218



Desde o início do Ano Santo, sucedem-se em cadeia a abertura de Portas da Misericórdia por toda a Igreja. Nas catedrais e nos santuários, em ermidas e paróquias, constituem uma verdadeira rede de Pórticos da santidade que convidando à redescoberta do Amor de Deus.

Sempre a surpreender a Igreja e o mundo, o Papa Francisco decidiu abrir também uma Porta da Misericórdia num albergue, no centro de Roma, que acolhe diariamente centenas de pobres, sob a responsabilidade da Cáritas Romana. Esta Porta tem os mesmos privilégios do que a de São Pedro do Vaticano. Poderão opinar alguns que gestos destes podem conduzir à banalização do símbolo, mas está na mente do Papa levar o espírito da Misericórdia até às periferias humanas que se tentam esconder diante dos olhos do mundo chamado civilizado.

Todas estas Portas a convidar ao Perdão e ao Amor são um poderoso anúncio do rosto de Deus que liberta e salva. Elas abrem clareiras no egoísmo, rompem muros intransponíveis, perfuram ódios e violência. Abertas diante de multidões congregadas por pastores, tais Portas são entradas para o coração de Deus e para os recantos de Paz que só em Deus encontramos.

Todavia, para além da rede de Portas da Misericórdia que vão mapeando os caminhos dos peregrinos e direcionando os trilhos das comunidades, é essencial que me cada coração humano haja também uma porta aberta ao irmão, ao desconhecido, ao refugiado, à vítima da indiferença, ao pobre e ao idoso, à mulher maltratada, ao marginalizado, à criança impedida de o ser. Cruzamo-nos a cada instante com outros que deveriam ser mais do que números ou indivíduos.

“O que fizeres ao mais pequenino, é a mim que o fazeis”, diz Jesus. O nosso coração deveria ser uma porta aberta e não uma parede cega. Aberto de par em par, o nosso coração deveria revelar os sinais da partilha, do afecto e do perdão. Quantos dramas carregamos aos ombros durante anos que nos perturbam e tiram a paz só porque não perdoamos a quem um dia nos ofendeu; quanta secura interior porque não educámos o coração para a descoberta do dom que o irmão pode ser para nós; quanto egoísmo com que moldamos os nossos comportamentos e que nos impedem de ver o sentido libertador da vida! É urgente abrir uma porta santa no nosso coração, em cada coração para que a civilização do amor não seja uma mera utopia, mas uma real via de esperança e de Paz.

Outrora, num estábulo de Belém, numa noite fria mas onde brilhavam estrelas, o amor de Deus abriu uma Porta Santa inesperada. Os anjos cantaram, os pastores acorreram, os reis vieram de longe e toda a humanidade foi resgatada, cruzando aquele pórtico de luz. O Natal é este gesto do amor de Deus que se renova em cada coração humano aberto ao dom do irmão. O nascimento de Jesus revela quem Deus é. Que o nosso coração aberto continue a dizer ao mundo que Deus é Amor.


Algo de novo está a acontecer: O Amor abriu as suas portas e convida-nos à sua festa.

P. Mário

A MADRE TERRA




A MADRE TERRA

A cimeira de Paris sobre as questões ambientais e climatéricas que reuniu grande parte dos líderes mundiais e os peritos mais qualificados sobre este assunto, pautou-se pelas dificuldades de selar compromissos e assumir a mudança de comportamentos. Todos amamos o planeta que nos serve de berço e todos estão interessados em evitar o caminho do precipício e do caos. Todavia, os consensos revelam-se difíceis e complexos.

Estas cimeiras sobre o clima são um dos eventos mais mediatizados e que fazem rodar uma máquina impressionante a exigindo um orçamento gigantesco. A verdade é que os compromissos assumidos são sistematicamente violados lançando para o descrédito, muitas das intensões que estão presentes no horizonte dos seus organizadores. Em matéria tão nuclear, a Igreja tem também uma palavra a dizer.

No passado dia 24 de Maio, solenidade do Pentecostes, o Papa Francisco publicou a Carta Encíclica “louvados sejas” sobre este tema. No subtítulo, o Papa argentino salientou uma ideia que abre as portas à reflexão: “Sobre o Cuidado da Casa Comum”. Nesta oportuna Carta Encíclica, Papa Francisco começa por denunciar, logo no segundo número, que esta irmã que é o planeta terra “clama contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou. Crescemos a pensar que éramos seus proprietários e dominadores, autorizados a saqueá-la. (...) Esquecemo-nos de que nós mesmo somos terra.”

Com esta denúncia, o Papa coloca o dedo na ferida: Vem de Adão e Eva o desejo de sermos nós os senhores do paraíso que é a nossa madre Terra. Em última análise, o que acontece é que nos julgamos proprietários com direito a utilizar os bens da Terra de acordo com os nossos caprichos. O resultado está à vista: A ameaça de estarmos já a pisar uma linha vermelha que pode comprometer a vida no planeta a uma escala de forma irremediável.

As questões do clima e do ambiente adquiriram já o estatuto duma questão teológica. “Deus viu que tudo era bom” no acto da Criação mas, nos nossos dias, nós vemos que tudo vai estando cada vez pior. O homem já proclamou a “morte de Deus” de modo solene, agora, se nada for invertido, prepara-se para proclamar a morte da própria natureza. A inversão dos valores consiste em passar do Amor com que Deus criou todas as coisas para o egoísmo com que o homem utiliza essas mesmas coisas.

Hoje quem dita os desígnios da Madre Terra não é o bem dos seus filhos, mas sim os interesses das grandes nações e dos grandes grupos económicos. O Papa Bento XVI denunciou mesmo que “o ambiente natural está cheio de chagas causadas pelo nosso comportamento irresponsável.“ Há, pois, um caminho de caos que teimosamente estamos a percorrer. Porém, está ainda ao nosso alcance a inversão desta tendência.

Aproxima-se o Natal e a força da sua mensagem revela uma verdade que não nos deveria deixar indiferentes: “Uma Luz brilhou nas trevas!”. Revestem-se de grande actualidade estas palavras que que estão no coração do Natal. É urgente que as sombras que pairam sobre a Madre Terra sejam dissipadas para que o sol da esperança tenha cada vez mais intensidade.

Se nesta quadra é lícito desejar um presente, pois, que nos esteja reservado o presente no sapatinho dum compromisso sério em que todos os povos se empenhem em cuidar melhor a nossa Casa Comum.

Padre Mário



quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

A PORTA DA MISERICÓRDIA


É no meio dum verdadeiro estado de guerra e de apreensões fundadas que se vai iniciar o Ano Santo da Misericórdia. Esta semana, a Inglaterra aprovou no Parlamento a sua participação activa nos bombardeamentos ao estado islâmico. A França, a Rússia, e mais uns quantos já tinham tomado a iniciativa de bombardear na certeza de que, pela força, aniquilarão o inimigo comum. A questão é saber se mais países vão aderir a esta iniciativa, o que certamente vai acontecer. Assistimos, assim, a uma euforia bélica sem precedentes no mundo ocidental e que pode trazer consequências imprevisíveis para a humanidade.

Entretanto, vai-se falando dos negócios clandestinos do petróleo do estado islâmico com a Rússia a acusar a Turquia e a Turquia a acusar a Rússia. E vão-se denunciando também os circuitos do comércio das armas e o modo como o Ocidente está a armar o estado islâmico. E, entretanto, continuam a morrer muitos refugiados no Mediterrâneo enquanto outros têm a sorte de adquirir um estatuto que lhes permite ser acolhidos na União Europeia.

E no meio de tudo isto, já não conseguimos discernir as razões mais justas nem sequer a razão de tudo isto. Os ideais da modernidade deveriam ter construído um mundo mais fraterno e afinal...tudo parece condenado ao egoísmo mais exacerbado e ao poder dos mais fortes.

E entretanto...anuncia-se o Natal. Jesus é apresentado como a Luz que veio para o mundo que andava nas trevas e como a Paz tão desejada por todos. Parece um paradoxo desconcertante falar em Luz e Paz com os sinais de horror a envolver-nos por todo o lado. Chega a ser violento, ter a coragem de anunciar uma mensagem de esperança quando se grita a vingança e o direito ao ódio. Mas talvez compreendamos melhor do que nunca as palavras de Jesus quando afirma que o Reino de Deus é dos violentos. Não dos violentos que fazem guerra, mas dos que abraçam a violência da paz.

É desconcertante esta coragem dos que proclamam a ousadia do amor. Esta proclamação denuncia o egoísmo e não se bloqueia com as razões humanas porque a questão não é saber quem tem razão. A questão é saber quem mais ama! E se esta visão das coisas pode parecer ingenuidade ou mero sentimentalismo, a verdade é que a violentíssima ternura que Jesus veio semear nos nossos corações, já transformou impérios, criou civilizações e gerou uma cultura de valores. Tudo coisas que voltamos a necessitar urgentemente. A sensação que nos dá é que os pilares da nossa civilização parecem estar a desmoronar e a fazer sobressair o que de pior há no coração do homem e na sua capacidade de fazer história.


Entendemos já porque faz tanto sentido preparar os caminhos do Natal? Só um Filho como nós, mas mais do que nós, poderá fazer brilhar de novo a Luz da Esperança. No dia da Imaculada Conceição, vai-se abrir uma Porta de Misericórdia, no santuário de Vila Viçosa. Passemos por ela, com o coração comprometido e gritando ao mundo a violência do Amor e da Paz.   

P. Mário