A PORTA DA MISERICÓRDIA
É no meio dum verdadeiro estado de
guerra e de apreensões fundadas que se vai iniciar o Ano Santo da Misericórdia.
Esta semana, a Inglaterra aprovou no Parlamento a sua participação activa nos
bombardeamentos ao estado islâmico. A França, a Rússia, e mais uns quantos já
tinham tomado a iniciativa de bombardear na certeza de que, pela força,
aniquilarão o inimigo comum. A questão é saber se mais países vão aderir a esta
iniciativa, o que certamente vai acontecer. Assistimos, assim, a uma euforia
bélica sem precedentes no mundo ocidental e que pode trazer consequências
imprevisíveis para a humanidade.
Entretanto, vai-se falando dos
negócios clandestinos do petróleo do estado islâmico com a Rússia a acusar a
Turquia e a Turquia a acusar a Rússia. E vão-se denunciando também os circuitos
do comércio das armas e o modo como o Ocidente está a armar o estado islâmico. E,
entretanto, continuam a morrer muitos refugiados no Mediterrâneo enquanto
outros têm a sorte de adquirir um estatuto que lhes permite ser acolhidos na
União Europeia.
E no meio de tudo isto, já não
conseguimos discernir as razões mais justas nem sequer a razão de tudo isto. Os
ideais da modernidade deveriam ter construído um mundo mais fraterno e afinal...tudo
parece condenado ao egoísmo mais exacerbado e ao poder dos mais fortes.
E entretanto...anuncia-se o Natal.
Jesus é apresentado como a Luz que veio para o mundo que andava nas trevas e
como a Paz tão desejada por todos. Parece um paradoxo desconcertante falar em
Luz e Paz com os sinais de horror a envolver-nos por todo o lado. Chega a ser
violento, ter a coragem de anunciar uma mensagem de esperança quando se grita a
vingança e o direito ao ódio. Mas talvez compreendamos melhor do que nunca as
palavras de Jesus quando afirma que o Reino de Deus é dos violentos. Não dos
violentos que fazem guerra, mas dos que abraçam a violência da paz.
É desconcertante esta coragem dos
que proclamam a ousadia do amor. Esta proclamação denuncia o egoísmo e não se
bloqueia com as razões humanas porque a questão não é saber quem tem razão. A
questão é saber quem mais ama! E se esta visão das coisas pode parecer
ingenuidade ou mero sentimentalismo, a verdade é que a violentíssima ternura
que Jesus veio semear nos nossos corações, já transformou impérios, criou
civilizações e gerou uma cultura de valores. Tudo coisas que voltamos a
necessitar urgentemente. A sensação que nos dá é que os pilares da nossa
civilização parecem estar a desmoronar e a fazer sobressair o que de pior há no
coração do homem e na sua capacidade de fazer história.
Entendemos já porque faz tanto
sentido preparar os caminhos do Natal? Só um Filho como nós, mas mais do que
nós, poderá fazer brilhar de novo a Luz da Esperança. No dia da Imaculada
Conceição, vai-se abrir uma Porta de Misericórdia, no santuário de Vila Viçosa.
Passemos por ela, com o coração comprometido e gritando ao mundo a violência do
Amor e da Paz.
P. Mário
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