quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

A PORTA DA MISERICÓRDIA


É no meio dum verdadeiro estado de guerra e de apreensões fundadas que se vai iniciar o Ano Santo da Misericórdia. Esta semana, a Inglaterra aprovou no Parlamento a sua participação activa nos bombardeamentos ao estado islâmico. A França, a Rússia, e mais uns quantos já tinham tomado a iniciativa de bombardear na certeza de que, pela força, aniquilarão o inimigo comum. A questão é saber se mais países vão aderir a esta iniciativa, o que certamente vai acontecer. Assistimos, assim, a uma euforia bélica sem precedentes no mundo ocidental e que pode trazer consequências imprevisíveis para a humanidade.

Entretanto, vai-se falando dos negócios clandestinos do petróleo do estado islâmico com a Rússia a acusar a Turquia e a Turquia a acusar a Rússia. E vão-se denunciando também os circuitos do comércio das armas e o modo como o Ocidente está a armar o estado islâmico. E, entretanto, continuam a morrer muitos refugiados no Mediterrâneo enquanto outros têm a sorte de adquirir um estatuto que lhes permite ser acolhidos na União Europeia.

E no meio de tudo isto, já não conseguimos discernir as razões mais justas nem sequer a razão de tudo isto. Os ideais da modernidade deveriam ter construído um mundo mais fraterno e afinal...tudo parece condenado ao egoísmo mais exacerbado e ao poder dos mais fortes.

E entretanto...anuncia-se o Natal. Jesus é apresentado como a Luz que veio para o mundo que andava nas trevas e como a Paz tão desejada por todos. Parece um paradoxo desconcertante falar em Luz e Paz com os sinais de horror a envolver-nos por todo o lado. Chega a ser violento, ter a coragem de anunciar uma mensagem de esperança quando se grita a vingança e o direito ao ódio. Mas talvez compreendamos melhor do que nunca as palavras de Jesus quando afirma que o Reino de Deus é dos violentos. Não dos violentos que fazem guerra, mas dos que abraçam a violência da paz.

É desconcertante esta coragem dos que proclamam a ousadia do amor. Esta proclamação denuncia o egoísmo e não se bloqueia com as razões humanas porque a questão não é saber quem tem razão. A questão é saber quem mais ama! E se esta visão das coisas pode parecer ingenuidade ou mero sentimentalismo, a verdade é que a violentíssima ternura que Jesus veio semear nos nossos corações, já transformou impérios, criou civilizações e gerou uma cultura de valores. Tudo coisas que voltamos a necessitar urgentemente. A sensação que nos dá é que os pilares da nossa civilização parecem estar a desmoronar e a fazer sobressair o que de pior há no coração do homem e na sua capacidade de fazer história.


Entendemos já porque faz tanto sentido preparar os caminhos do Natal? Só um Filho como nós, mas mais do que nós, poderá fazer brilhar de novo a Luz da Esperança. No dia da Imaculada Conceição, vai-se abrir uma Porta de Misericórdia, no santuário de Vila Viçosa. Passemos por ela, com o coração comprometido e gritando ao mundo a violência do Amor e da Paz.   

P. Mário    

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