A MADRE TERRA
A cimeira de Paris sobre as questões
ambientais e climatéricas que reuniu grande parte dos líderes mundiais e os
peritos mais qualificados sobre este assunto, pautou-se pelas dificuldades de
selar compromissos e assumir a mudança de comportamentos. Todos amamos o
planeta que nos serve de berço e todos estão interessados em evitar o caminho
do precipício e do caos. Todavia, os consensos revelam-se difíceis e complexos.
Estas cimeiras sobre o clima são um
dos eventos mais mediatizados e que fazem rodar uma máquina impressionante a
exigindo um orçamento gigantesco. A verdade é que os compromissos assumidos são
sistematicamente violados lançando para o descrédito, muitas das intensões que
estão presentes no horizonte dos seus organizadores. Em matéria tão nuclear, a
Igreja tem também uma palavra a dizer.
No passado dia 24 de Maio,
solenidade do Pentecostes, o Papa Francisco publicou a Carta Encíclica
“louvados sejas” sobre este tema. No subtítulo, o Papa argentino salientou uma
ideia que abre as portas à reflexão: “Sobre o Cuidado da Casa Comum”. Nesta
oportuna Carta Encíclica, Papa Francisco começa por denunciar, logo no segundo
número, que esta irmã que é o planeta terra “clama contra o mal que lhe
provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela
colocou. Crescemos a pensar que éramos seus proprietários e dominadores,
autorizados a saqueá-la. (...) Esquecemo-nos de que nós mesmo somos terra.”
Com esta denúncia, o Papa coloca o
dedo na ferida: Vem de Adão e Eva o desejo de sermos nós os senhores do paraíso
que é a nossa madre Terra. Em última análise, o que acontece é que nos julgamos
proprietários com direito a utilizar os bens da Terra de acordo com os nossos
caprichos. O resultado está à vista: A ameaça de estarmos já a pisar uma linha
vermelha que pode comprometer a vida no planeta a uma escala de forma
irremediável.
As questões do clima e do ambiente
adquiriram já o estatuto duma questão teológica. “Deus viu que tudo era bom” no
acto da Criação mas, nos nossos dias, nós vemos que tudo vai estando cada vez
pior. O homem já proclamou a “morte de Deus” de modo solene, agora, se nada for
invertido, prepara-se para proclamar a morte da própria natureza. A inversão
dos valores consiste em passar do Amor com que Deus criou todas as coisas para
o egoísmo com que o homem utiliza essas mesmas coisas.
Hoje quem dita os desígnios da Madre
Terra não é o bem dos seus filhos, mas sim os interesses das grandes nações e
dos grandes grupos económicos. O Papa Bento XVI denunciou mesmo que “o ambiente
natural está cheio de chagas causadas pelo nosso comportamento irresponsável.“
Há, pois, um caminho de caos que teimosamente estamos a percorrer. Porém, está
ainda ao nosso alcance a inversão desta tendência.
Aproxima-se o Natal e a força da sua
mensagem revela uma verdade que não nos deveria deixar indiferentes: “Uma Luz
brilhou nas trevas!”. Revestem-se de grande actualidade estas palavras que que
estão no coração do Natal. É urgente que as sombras que pairam sobre a Madre
Terra sejam dissipadas para que o sol da esperança tenha cada vez mais
intensidade.
Se nesta quadra é lícito desejar um
presente, pois, que nos esteja reservado o presente no sapatinho dum
compromisso sério em que todos os povos se empenhem em cuidar melhor a nossa
Casa Comum.
Padre Mário
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