sábado, 19 de dezembro de 2015

A MADRE TERRA




A MADRE TERRA

A cimeira de Paris sobre as questões ambientais e climatéricas que reuniu grande parte dos líderes mundiais e os peritos mais qualificados sobre este assunto, pautou-se pelas dificuldades de selar compromissos e assumir a mudança de comportamentos. Todos amamos o planeta que nos serve de berço e todos estão interessados em evitar o caminho do precipício e do caos. Todavia, os consensos revelam-se difíceis e complexos.

Estas cimeiras sobre o clima são um dos eventos mais mediatizados e que fazem rodar uma máquina impressionante a exigindo um orçamento gigantesco. A verdade é que os compromissos assumidos são sistematicamente violados lançando para o descrédito, muitas das intensões que estão presentes no horizonte dos seus organizadores. Em matéria tão nuclear, a Igreja tem também uma palavra a dizer.

No passado dia 24 de Maio, solenidade do Pentecostes, o Papa Francisco publicou a Carta Encíclica “louvados sejas” sobre este tema. No subtítulo, o Papa argentino salientou uma ideia que abre as portas à reflexão: “Sobre o Cuidado da Casa Comum”. Nesta oportuna Carta Encíclica, Papa Francisco começa por denunciar, logo no segundo número, que esta irmã que é o planeta terra “clama contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou. Crescemos a pensar que éramos seus proprietários e dominadores, autorizados a saqueá-la. (...) Esquecemo-nos de que nós mesmo somos terra.”

Com esta denúncia, o Papa coloca o dedo na ferida: Vem de Adão e Eva o desejo de sermos nós os senhores do paraíso que é a nossa madre Terra. Em última análise, o que acontece é que nos julgamos proprietários com direito a utilizar os bens da Terra de acordo com os nossos caprichos. O resultado está à vista: A ameaça de estarmos já a pisar uma linha vermelha que pode comprometer a vida no planeta a uma escala de forma irremediável.

As questões do clima e do ambiente adquiriram já o estatuto duma questão teológica. “Deus viu que tudo era bom” no acto da Criação mas, nos nossos dias, nós vemos que tudo vai estando cada vez pior. O homem já proclamou a “morte de Deus” de modo solene, agora, se nada for invertido, prepara-se para proclamar a morte da própria natureza. A inversão dos valores consiste em passar do Amor com que Deus criou todas as coisas para o egoísmo com que o homem utiliza essas mesmas coisas.

Hoje quem dita os desígnios da Madre Terra não é o bem dos seus filhos, mas sim os interesses das grandes nações e dos grandes grupos económicos. O Papa Bento XVI denunciou mesmo que “o ambiente natural está cheio de chagas causadas pelo nosso comportamento irresponsável.“ Há, pois, um caminho de caos que teimosamente estamos a percorrer. Porém, está ainda ao nosso alcance a inversão desta tendência.

Aproxima-se o Natal e a força da sua mensagem revela uma verdade que não nos deveria deixar indiferentes: “Uma Luz brilhou nas trevas!”. Revestem-se de grande actualidade estas palavras que que estão no coração do Natal. É urgente que as sombras que pairam sobre a Madre Terra sejam dissipadas para que o sol da esperança tenha cada vez mais intensidade.

Se nesta quadra é lícito desejar um presente, pois, que nos esteja reservado o presente no sapatinho dum compromisso sério em que todos os povos se empenhem em cuidar melhor a nossa Casa Comum.

Padre Mário



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