quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

O CORAÇÃO DA IGREJA: A CARIDADE



O próximo Domingo é o Dia da Caritas. Entre as muitas instituições da Igreja, a Caritas, a Caridade, merece uma atenção especial pelo que exprime da genuína alma da comunidade cristã. O Dia Caritas é pretexto para o nosso Pórtico de hoje.

A opinião pública teima em distorcer o sentido verdadeiro da palavra caridade para se fixar numa deturpação da mesma. Normalmente, o uso da palavra caridade é usado, inclusive, para denegrir a acção dos cristãos. Este uso distorcido da palavra caridade é inadequado e injusto. Hoje prefere-se a palavra solidariedade para exprimir a acção social. Ora esta, sendo uma acção digna, não implica tudo o que a caridade exige.

Enquanto a solidariedade me leva a fazer bem ao outro porque reconheço dignidade em cada ser humano porque é humano, a caridade leva-me a fazer bem ao meu próximo porque reconheço nele a imagem de Jesus: “O que fizeres ao próximo, a mim o fazeis”.

A caridade é indissociável da missão da Igreja. João Paulo II, num encontro mundial da Caritas, afirmou: “A caridade é o coração da Igreja: sem caridade a Igreja não é Igreja de Jesus Cristo”. O Papa Francisco acrescentaria que sem a caridade a Igreja seria uma espécie duma ONG religiosa, mas não seria a Igreja de Cristo. A caridade não pode ser só o coração da Igreja, tem de ser também o seu rosto visível e o seu testemunho mais eloquente.

As comunidades primitivas erguiam-se em torno do ideal do amor entre os irmãos e era uma evidência para os cristãos que onde há caridade, aí está Deus. A fé dos cristãos não se alicerça, antes de mais, numa ideia do “Deus das alturas”; para os cristãos, é claro que Deus está onde há caridade e amor. Este é o segredo da Igreja que deve ser protegido e cuidado como um diamante precioso. Podem destruir os templos, podem atacar as estruturas eclesiásticas, podem denegrir os seus esforços, mas enquanto houver dois irmãos que se amam como Jesus nos amou, será sempre possível reedificar o ideal e a mensagem de Jesus Cristo, Salvador da humanidade.

No passado, a caridade organizou-se em respostas assistenciais, numa palavra, institucionalizou-se. Esta passagem para a assistência organizada, pode levar muitos cristãos a imaginar que a missão da Igreja em ajudar os mais necessitados se concretiza nas suas instituições sociais. Nada de mais errado e perigoso. As respostas sociais da Igreja jamais poderão desresponsabilizar cada um dos cristãos do dever de fazer da caridade a essência da sua fé. Cumprir todos os preceitos religiosos e descurar o amor ao irmão porque há uma instituição que o faz, seria uma mentira e uma falsidade.

Se um dia se fizesse a história da caridade do nosso tempo e se essa história se limitasse às instituições sociais da Igreja e não tivesse em conta os gestos pessoais e de proximidade de cada cristão, essa história deveria ficar incompleta. Uma instituição como a Caritas que tem uma organização internacional, nacional, diocesana e local, não dispensa o testemunho de cada cristão, antes, deveria exprimir o testemunho autêntico do evangelho que se torna presente na vida de cada cristão.

Para que a acção das instituições da Igreja seja verdadeira ela reclama a autenticidade do testemunho e da missão de cada cristão. Sem este testemunho, o dia Caritas será marcado só por mais um peditório e uma recolha de fundos. Seria já bastante, mas não seria a expressão genuína da experiência da Igreja.

A caridade e o amor são o coração da experiência da fé. Sirva-nos a este propósito as palavras de São João da Cruz, místico espanhol: “Onde não vires o amor, coloca tu o amor e aí passará a haver amor”. É antiga e sempre nova esta missão e urgente porque onde há caridade aí está Deus! Estou certo que o reencontro do mundo e da história com Deus se dará pelo testemunho da caridade e do amor.

P. Mário







quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

A ALEGRIA DE PARTILHAR





A viagem apostólica do Papa Francisco ao México foi marcada por uma grande riqueza de gestos e sinais que não deixará ninguém indiferente. Alguns extraordinários e mesmo históricos, como foi o encontro com o Patriarca de Moscovo; outros que já se tornaram habituais e que falam pela beleza da sua simplicidade. O estilo do Papa Francisco é ousadamente evangélico. Aí reside o encanto que provoca à sua passagem.

Entre a profusão de notícias que nos foram chegando a toda a hora, uma houve que me provocou de sobremaneira: um magnata americano ameaçou que iria deixar de contribuir com os seus fundos para as actividades da Igreja. A razão tinha a ver com o facto do Papa, nas suas palavras, ter denunciado várias vezes os malefícios do capitalismo sem escrúpulos que gera injustiças e todo o tipo de males.

Estou certo que estas ameaças não farão o Papa Francisco abrandar a sua denúncia profética. Recordo que quando João Paulo II visitou Vila Viçosa e falou aos trabalhadores rurais ensinou que toda a propriedade privada comporta em si uma hipoteca social, isto é, os meus bens têm também um fim social e não devem ser vistos unicamente com um fim egoísta. É a lógica do evangelho que Jesus anunciou outrora e que continua com uma actualidade marcante.

Uma das notas características deste tempo da Quaresma é a partilha. Este ano, o Senhor Arcebispo convida-nos a partilhar com os cristãos perseguidos e que padecem de todo o tipo de carências: Templos destruídos, comunidades em fuga, campos de refugiados sem o mínimo de condições são o cenário que muitos irmãos nossos estão a viver todos os dias. Ficar insensível a esta realidade seria um contratestemunho.

Não basta dizer que temos fé. Temos fé se vivemos de acordo com a fé que dizemos ter. Partilhar é um dos sinais visíveis de quem tem fé. Dar e dar-se é próprio de quem quer ser discípulo de Jesus. Quem diz que tem fé, mas ainda não descobriu a alegria de dar e de partilhar, ainda não experimentou um dos frutos mais belos da fé em Jesus Cristo.

O nosso dar não pode ser como o do magnata americano que, no fundo, quer silenciar as palavras incómodas do evangelho e ser reconhecido pelos seus méritos.

Jesus convida-nos a dar no segredo, sem que a mão esquerda saiba o que faz a direita. Num mundo tão egoísta, dar desinteressadamente é ter a coragem de ir contra a corrente. O cristão, em certa medida é um “não-alinhado” face aos critérios da cultura egocêntrica. O irmão que sofre é ocasião oportuna para amar sem medida.

No regresso a Roma, o Papa denunciou ainda os intentos dum candidato à presidência da América que se propõe construir um muro ao longo da fronteira com o México para impedir a entrada de mais migrantes clandestinos. Este candidato apresenta-se como cristão, mas o Papa não teve qualquer dúvida em dizer que essa atitude não tem nada a ver com o evangelho e quem pensa assim, de facto, não é cristão.

Esta denúncia do Papa não é só para o referido candidato, mas sim para todos nós. Em que medida o nosso testemunho de fé é autêntico e tem no horizonte o abraço aos irmãos ou revela ainda os sinais do egoísmo que me fazem olhar os outros mais como obstáculos? A partilha mostra a dimensão da nossa fé.


Aprendamos a rasgar o coração e descubramos a sabedoria do evangelho que nos ensina que há mais alegria em dar do que em receber.   

P. Mário 

sábado, 13 de fevereiro de 2016

QUARESMA: MAIS DO QUE UMA COISA RELIGIOSA




Tempos houve em que os princípios cristãos estavam enraizados no modo de viver da sociedade. A fé marcava o ritmo do tempo e os costumes eram moldados por tradições que se geraram pelos valores religiosos e espirituais. No passado, falar em Quaresma era invocar um tempo rico em sinais que nos aproximavam mais de Deus e uns dos outros.

Longe vão esses tempos. Hoje, a Quaresma parece estar reservada para uma pequena comunidade que não perdeu a consciência do seu compromisso cristão, mas o espírito quaresmal anda longe das preocupações da maioria que vai perdendo a memória das suas raízes cristãs. Reduziu-se a Quaresma a uma coisa religiosa, só para alguns, e vai-se perdendo a pedagogia salutar deste tempo que é mais do que coisa religiosa.

A Quaresma, com efeito, é a preparação para a Páscoa, ao longo de 40 dias, mas a sua proposta passa por reequilibrar os nossos comportamentos sociais, pelo perdão e pela fraternidade, pela partilha solidária e pelo abraço da fé. O caminho quaresmal, em última análise, visa o fortalecimento da fé mas, ao mesmo tempo, visa também a humanização da sociedade a través de prácticas que convidam à união entre todos. Era um tempo de regrado onde se chamava a tenção para os excessos e se espiritualizava a vida.

Podemos opinar, com razão, que cada um é livre de praticar ou não uma religião. A verdade é que quanto mais o homem se vai afastando dos valores religiosos e espirituais mais distante vai ficando a sua capacidade de edificar uma sociedade mais humana e fraterna. Longe de Deus, ficamos mais longe uns dos outros e mais longe de nós mesmos. Quanto mais silenciamos os valores cristãos, mais vazios vamos ficando de ideais e sobe de tom a agressividade, o conflito e a angústia.

A desumanização da sociedade é um reflexo do vazio dos valores e duma espiritualidade autêntica. É fácil de adivinhar males ainda maiores no futuro próximo. Não é um mau agouro, antes, é uma leitura realista da história. Não se trata de sonhar com o regresso ao passado o que seria anacrónico, estéril e despropositado. Seria importante, isso sim, redescobrir a luz do evangelho para o nosso tempo que é rico de tantas coisas, mas que perdeu o sentido da sua história. A Quaresma deveria ajudar-nos nesta redescoberta.

Pretender que a religião seja coisa do passado é enterrar também toda a riqueza que nos pode vir do anúncio do evangelho. A verdade é que a cultura da morte vai subindo de tom. Depois de termos uma lei que permite matar vidas humanas no seio materno, já a opinião pública se prepara para aceitar que se acabe com a vida quando ela começa a ser um peso e a parecer um estorvo. Em nome dum falso humanismo, provoca-se a morte em vez do abraço e do acolhimento. O mais grave é que vamos deixando de pensar como humanos para nos remetermos à lógica da eficácia ex-máquina. 

Perante estes cenários a que não são alheias as guerras iníquas, as desigualdades gritantes, os refugiados em desespero, a cultura da morte instituída, apetece perguntar: Faz falta ou não o espírito quaresmal à nossa sociedade?

Por estes dias, um Centro Social Paroquial de Viseu foi multado em milhares de euros por dar de comer a mais seis carenciados do que a lei prevê. Soubemos da notícia porque o pároco recorreu para os tribunais mas sei de outros que também foram multados pelos mesmos motivos mas não saltaram para as redes. Chegámos a isto: já não se pode ser solidário, nem há espaço para a caridade fraterna. A sociedade moderna que quis substituir a religião pelos direitos humanos enferma já de falta de humanismo. As leis do nosso país já multam as instituições que matam a fome para além do “previsto”!

Na Quaresma, o que está mesmo em questão é o projecto humano de Deus! É um tempo de ir ao encontro do coração de Deus para que o homem seja mais homem!

Padre Mário