O próximo Domingo é o Dia da Caritas.
Entre as muitas instituições da Igreja, a Caritas, a Caridade, merece uma
atenção especial pelo que exprime da genuína alma da comunidade cristã. O Dia
Caritas é pretexto para o nosso Pórtico de hoje.
A opinião pública teima em
distorcer o sentido verdadeiro da palavra caridade para se fixar numa
deturpação da mesma. Normalmente, o uso da palavra caridade é usado, inclusive,
para denegrir a acção dos cristãos. Este uso distorcido da palavra caridade é
inadequado e injusto. Hoje prefere-se a palavra solidariedade para exprimir a
acção social. Ora esta, sendo uma acção digna, não implica tudo o que a
caridade exige.
Enquanto a solidariedade me leva
a fazer bem ao outro porque reconheço dignidade em cada ser humano porque é
humano, a caridade leva-me a fazer bem ao meu próximo porque reconheço nele a
imagem de Jesus: “O que fizeres ao próximo, a mim o fazeis”.
A caridade é indissociável da
missão da Igreja. João Paulo II, num encontro mundial da Caritas, afirmou: “A
caridade é o coração da Igreja: sem caridade a Igreja não é Igreja de Jesus
Cristo”. O Papa Francisco acrescentaria que sem a caridade a Igreja seria uma
espécie duma ONG religiosa, mas não seria a Igreja de Cristo. A caridade não
pode ser só o coração da Igreja, tem de ser também o seu rosto visível e o seu
testemunho mais eloquente.
As comunidades primitivas
erguiam-se em torno do ideal do amor entre os irmãos e era uma evidência para
os cristãos que onde há caridade, aí está Deus. A fé dos cristãos não se
alicerça, antes de mais, numa ideia do “Deus das alturas”; para os cristãos, é
claro que Deus está onde há caridade e amor. Este é o segredo da Igreja que
deve ser protegido e cuidado como um diamante precioso. Podem destruir os
templos, podem atacar as estruturas eclesiásticas, podem denegrir os seus
esforços, mas enquanto houver dois irmãos que se amam como Jesus nos amou, será
sempre possível reedificar o ideal e a mensagem de Jesus Cristo, Salvador da humanidade.
No passado, a caridade
organizou-se em respostas assistenciais, numa palavra, institucionalizou-se.
Esta passagem para a assistência organizada, pode levar muitos cristãos a
imaginar que a missão da Igreja em ajudar os mais necessitados se concretiza
nas suas instituições sociais. Nada de mais errado e perigoso. As respostas
sociais da Igreja jamais poderão desresponsabilizar cada um dos cristãos do
dever de fazer da caridade a essência da sua fé. Cumprir todos os preceitos
religiosos e descurar o amor ao irmão porque há uma instituição que o faz,
seria uma mentira e uma falsidade.
Se um dia se fizesse a história
da caridade do nosso tempo e se essa história se limitasse às instituições
sociais da Igreja e não tivesse em conta os gestos pessoais e de proximidade de
cada cristão, essa história deveria ficar incompleta. Uma instituição como a
Caritas que tem uma organização internacional, nacional, diocesana e local, não
dispensa o testemunho de cada cristão, antes, deveria exprimir o testemunho
autêntico do evangelho que se torna presente na vida de cada cristão.
Para que a acção das instituições
da Igreja seja verdadeira ela reclama a autenticidade do testemunho e da missão
de cada cristão. Sem este testemunho, o dia Caritas será marcado só por mais um
peditório e uma recolha de fundos. Seria já bastante, mas não seria a expressão
genuína da experiência da Igreja.
A caridade e o amor são o coração
da experiência da fé. Sirva-nos a este propósito as palavras de São João da
Cruz, místico espanhol: “Onde não vires o amor, coloca tu o amor e aí passará a
haver amor”. É antiga e sempre nova esta missão e urgente porque onde há
caridade aí está Deus! Estou certo que o reencontro do mundo e da história com
Deus se dará pelo testemunho da caridade e do amor.
P. Mário