quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

A ALEGRIA DE PARTILHAR





A viagem apostólica do Papa Francisco ao México foi marcada por uma grande riqueza de gestos e sinais que não deixará ninguém indiferente. Alguns extraordinários e mesmo históricos, como foi o encontro com o Patriarca de Moscovo; outros que já se tornaram habituais e que falam pela beleza da sua simplicidade. O estilo do Papa Francisco é ousadamente evangélico. Aí reside o encanto que provoca à sua passagem.

Entre a profusão de notícias que nos foram chegando a toda a hora, uma houve que me provocou de sobremaneira: um magnata americano ameaçou que iria deixar de contribuir com os seus fundos para as actividades da Igreja. A razão tinha a ver com o facto do Papa, nas suas palavras, ter denunciado várias vezes os malefícios do capitalismo sem escrúpulos que gera injustiças e todo o tipo de males.

Estou certo que estas ameaças não farão o Papa Francisco abrandar a sua denúncia profética. Recordo que quando João Paulo II visitou Vila Viçosa e falou aos trabalhadores rurais ensinou que toda a propriedade privada comporta em si uma hipoteca social, isto é, os meus bens têm também um fim social e não devem ser vistos unicamente com um fim egoísta. É a lógica do evangelho que Jesus anunciou outrora e que continua com uma actualidade marcante.

Uma das notas características deste tempo da Quaresma é a partilha. Este ano, o Senhor Arcebispo convida-nos a partilhar com os cristãos perseguidos e que padecem de todo o tipo de carências: Templos destruídos, comunidades em fuga, campos de refugiados sem o mínimo de condições são o cenário que muitos irmãos nossos estão a viver todos os dias. Ficar insensível a esta realidade seria um contratestemunho.

Não basta dizer que temos fé. Temos fé se vivemos de acordo com a fé que dizemos ter. Partilhar é um dos sinais visíveis de quem tem fé. Dar e dar-se é próprio de quem quer ser discípulo de Jesus. Quem diz que tem fé, mas ainda não descobriu a alegria de dar e de partilhar, ainda não experimentou um dos frutos mais belos da fé em Jesus Cristo.

O nosso dar não pode ser como o do magnata americano que, no fundo, quer silenciar as palavras incómodas do evangelho e ser reconhecido pelos seus méritos.

Jesus convida-nos a dar no segredo, sem que a mão esquerda saiba o que faz a direita. Num mundo tão egoísta, dar desinteressadamente é ter a coragem de ir contra a corrente. O cristão, em certa medida é um “não-alinhado” face aos critérios da cultura egocêntrica. O irmão que sofre é ocasião oportuna para amar sem medida.

No regresso a Roma, o Papa denunciou ainda os intentos dum candidato à presidência da América que se propõe construir um muro ao longo da fronteira com o México para impedir a entrada de mais migrantes clandestinos. Este candidato apresenta-se como cristão, mas o Papa não teve qualquer dúvida em dizer que essa atitude não tem nada a ver com o evangelho e quem pensa assim, de facto, não é cristão.

Esta denúncia do Papa não é só para o referido candidato, mas sim para todos nós. Em que medida o nosso testemunho de fé é autêntico e tem no horizonte o abraço aos irmãos ou revela ainda os sinais do egoísmo que me fazem olhar os outros mais como obstáculos? A partilha mostra a dimensão da nossa fé.


Aprendamos a rasgar o coração e descubramos a sabedoria do evangelho que nos ensina que há mais alegria em dar do que em receber.   

P. Mário 

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