A viagem apostólica do Papa
Francisco ao México foi marcada por uma grande riqueza de gestos e sinais que
não deixará ninguém indiferente. Alguns extraordinários e mesmo históricos,
como foi o encontro com o Patriarca de Moscovo; outros que já se tornaram
habituais e que falam pela beleza da sua simplicidade. O estilo do Papa
Francisco é ousadamente evangélico. Aí reside o encanto que provoca à sua
passagem.
Entre a profusão de notícias que
nos foram chegando a toda a hora, uma houve que me provocou de sobremaneira: um
magnata americano ameaçou que iria deixar de contribuir com os seus fundos para
as actividades da Igreja. A razão tinha a ver com o facto do Papa, nas suas
palavras, ter denunciado várias vezes os malefícios do capitalismo sem
escrúpulos que gera injustiças e todo o tipo de males.
Estou certo que estas ameaças não
farão o Papa Francisco abrandar a sua denúncia profética. Recordo que quando
João Paulo II visitou Vila Viçosa e falou aos trabalhadores rurais ensinou que
toda a propriedade privada comporta em si uma hipoteca social, isto é, os meus
bens têm também um fim social e não devem ser vistos unicamente com um fim
egoísta. É a lógica do evangelho que Jesus anunciou outrora e que continua com
uma actualidade marcante.
Uma das notas características
deste tempo da Quaresma é a partilha. Este ano, o Senhor Arcebispo convida-nos
a partilhar com os cristãos perseguidos e que padecem de todo o tipo de
carências: Templos destruídos, comunidades em fuga, campos de refugiados sem o
mínimo de condições são o cenário que muitos irmãos nossos estão a viver todos
os dias. Ficar insensível a esta realidade seria um contratestemunho.
Não basta dizer que temos fé.
Temos fé se vivemos de acordo com a fé que dizemos ter. Partilhar é um dos
sinais visíveis de quem tem fé. Dar e dar-se é próprio de quem quer ser
discípulo de Jesus. Quem diz que tem fé, mas ainda não descobriu a alegria de
dar e de partilhar, ainda não experimentou um dos frutos mais belos da fé em
Jesus Cristo.
O nosso dar não pode ser como o
do magnata americano que, no fundo, quer silenciar as palavras incómodas do
evangelho e ser reconhecido pelos seus méritos.
Jesus convida-nos a dar no
segredo, sem que a mão esquerda saiba o que faz a direita. Num mundo tão
egoísta, dar desinteressadamente é ter a coragem de ir contra a corrente. O
cristão, em certa medida é um “não-alinhado” face aos critérios da cultura
egocêntrica. O irmão que sofre é ocasião oportuna para amar sem medida.
No regresso a Roma, o Papa
denunciou ainda os intentos dum candidato à presidência da América que se
propõe construir um muro ao longo da fronteira com o México para impedir a
entrada de mais migrantes clandestinos. Este candidato apresenta-se como
cristão, mas o Papa não teve qualquer dúvida em dizer que essa atitude não tem nada
a ver com o evangelho e quem pensa assim, de facto, não é cristão.
Esta denúncia do Papa não é só
para o referido candidato, mas sim para todos nós. Em que medida o nosso testemunho
de fé é autêntico e tem no horizonte o abraço aos irmãos ou revela ainda os
sinais do egoísmo que me fazem olhar os outros mais como obstáculos? A partilha
mostra a dimensão da nossa fé.
Aprendamos a rasgar o coração e
descubramos a sabedoria do evangelho que nos ensina que há mais alegria em dar
do que em receber.
P. Mário
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