sexta-feira, 18 de março de 2016

A Páscoa de Nicolau Breyner




Pertenço à fraternidade dos que nos emocionámos com a Páscoa de Nicolau Breyner. Segundo a nossa lógica, ainda teria muito para dar e para nos revelar. Um artista tem o condão de nos revelar, sem necessitar de pedir licença, quando nos faz rir, chorar ou contemplar. E o humorista de Serpa tinha esse dom que nos congregava à volta da mesa da alegria.  

Inesperadamente, partiu. Mas o drama da sua partida não pode tolher de sombras a felicidade que distribuiu ao longo de toda a sua vida. A gratidão leva de vencida ao estremecimento da alma que a notícia provocou e abre espaço num recanto de brisas que há dentro de nós, onde guardamos as memórias agradecidas.

O que sobressai, após um tão longo caminho artístico, é a sensação de que Nicolau Breyner se cumpriu. A sua vida está emoldurada em plenitude porque profundamente humana. Nunca escondeu a luminosidade da sua fé católica que lhe modelou os valores que pautaram a sua vida. Deixou que essa fé desabrochasse em abraços fraternos e em sorrisos contagiantes.

Não precisou de ser agressivo nem de humilhar para encantar; não teve de recorrer ao brejeiro para fazer eclodir risos espontâneos; não precisou de chocar para atrair os olhares nem caiu na tentação do narcisismo para que todos reconhecessem o seu talento.

Transparece da sua vida o legado do coração, no fundo, a maior herança que nos deixa num mundo cada vez com menos coração. O rasto de amigos que choram pela sua partida confunde-se com um sentimento comum que a todos nos irmana. Tinha razão Oscar Wilde: "Quando alguém converte a sua vida num acto artístico, a inteligência passa a ser o seu coração".

Obrigado, Nicolau por nos teres dado uma vida tão humana e, assim, teres contribuído tanto para sermos um pouco mais felizes. Obrigado por nos fazeres descobrir que a vida é uma Páscoa: uma passagem onde os sinais da morte podem conduzir à gratidão da vida que permanece.

Sejas digno, eternamente, de provocar o sorriso de Deus.

P. Mário




sábado, 12 de março de 2016

O SAGRADO E O LAICAL



Tomou posse o novo Presidente da República. Uma onda de optimisto e de suave esperança acompanhou cada passo do início de funções do mais alto magistrado da Nação. Marcelo Rebelo de Sousa tem conseguido gerar à sua volta uma verdadeira onda positiva que parece ir muito além dum acto eleitoral e pode augurar tempos pacificadores para a nossa convivência.

Entre os gestos que assinalaram esta tomada de posse, um houve que me chamou a atenção pelo seu lado tão inédito quanto corajoso: um gesto de diálogo inter-religioso numa sala da mesquita de Lisboa. Não estamos habituados a que as coisas do Estado com esta dimensão comportem momentos onde se valorize a importância da religião e da espiritualidade como dado capaz de potenciar a nossa convivência.

Normalmente, a diversidade das religiões está associada a conflitualidades nutridas com razões históricas de maior ou menor espessura. Todavia, nos últimos tempos, são muitos os testemunhos em que as mais diversas religiões são capazes de se reunirem para uma oração comum onde as divergências dão lugar à vontade de comunhão.

Na nossa memória, permanece o histórico encontro de Assis promovido pelo Papa João Paulo II e repetido pelo Papa Bento XVI. Nesta esteira, estão também os gestos vários do Papa Francisco que tem semeado uma cultura de diálogo e que ainda, recentemente, proporcionou um inesquecível encontro com o Patriarca de Moscovo na ilha de Cuba. Estes gestos revelam o que de melhor tem a alma das religiões e a sua capacidade de gerar gestos de esperança.

Marcelo Rebelo de Sousa não esconde a sua opção católica. Ao mesmo tempo, ninguém duvida que o encontro inter-religioso que marcou a sua tomada de posse foi uma vontade sua, onde se reconhece uma mundividência rara na nossa cena política. Há, certamente, um eco de Assis nesta iniciativa presidencial de grande relevância.

Estamos habituados a que os nossos políticos confundam laicidade com indiferentismo religioso. Ora laicidade não consiste em anular o lugar da religião na vida das sociedades. Ao Estado compete não escolher uma religião oficial para promover a missão de todas valorizando o que de bom podem trazer à sociedade. Com este gesto, o novo Presidente parece ter bem claro a importância da religiosidade na história humana.

É particularmente interessante que o lugar escolhido tenha sido uma sala da mesquita de Lisboa. Seria talvez mais óbvio e ninguém iria estranhar que esse encontro ocorresse nos Jerónimos ou até na Sé de Lisboa. Estou certo que nenhum líder religioso se negaria a estar presente num lugar marcadamente católico. Porém, a delicadeza e o sentido da convivência aconselharam que pudesse ser a mesquita de lisboa o lugar escolhido. Gostei de não ver qualquer sinal de resistência do lado católico a que isso fosse assim. Gostei que o Cardeal Patriarca tivesse estado presente em pessoa e não tivesse enviado um representante. A simplicidade do encontro não escondeu a densidade do momento que anunciou a possibilidade de muitos outros gestos no futuro.


Finalmente, gostei que o pretexto para juntar os lideres religiosos tenha sido um motivo habitualmente tão pouco religioso: A tomada de posse do Presidente da República! Católico quer dizer universal e ficou bem patente neste encontro a alma católica, capaz de abraçar e de promover diálogos tão urgentes quanto necessários na nossa sociedade. A unidade é a via certa. É o caminho que Jesus pediu na Última Ceia. 

P. Mário