Pertenço à fraternidade dos que nos emocionámos com a
Páscoa de Nicolau Breyner. Segundo a nossa lógica, ainda teria muito para dar e
para nos revelar. Um artista tem o condão de nos revelar, sem necessitar de
pedir licença, quando nos faz rir, chorar ou contemplar. E o humorista de Serpa
tinha esse dom que nos congregava à volta da mesa da alegria.
Inesperadamente, partiu. Mas o drama da sua partida
não pode tolher de sombras a felicidade que distribuiu ao longo de toda a sua
vida. A gratidão leva de vencida ao estremecimento da alma que a notícia
provocou e abre espaço num recanto de brisas que há dentro de nós, onde
guardamos as memórias agradecidas.
O que sobressai, após um tão longo caminho artístico,
é a sensação de que Nicolau Breyner se cumpriu. A sua vida está emoldurada em
plenitude porque profundamente humana. Nunca escondeu a luminosidade da sua fé
católica que lhe modelou os valores que pautaram a sua vida. Deixou que essa fé
desabrochasse em abraços fraternos e em sorrisos contagiantes.
Não precisou de ser agressivo nem de humilhar para
encantar; não teve de recorrer ao brejeiro para fazer eclodir risos
espontâneos; não precisou de chocar para atrair os olhares nem caiu na tentação
do narcisismo para que todos reconhecessem o seu talento.
Transparece da sua vida o legado do coração, no fundo,
a maior herança que nos deixa num mundo cada vez com menos coração. O rasto de
amigos que choram pela sua partida confunde-se com um sentimento comum que a
todos nos irmana. Tinha razão Oscar Wilde: "Quando alguém converte a sua
vida num acto artístico, a inteligência passa a ser o seu coração".
Obrigado, Nicolau por nos teres dado uma vida tão
humana e, assim, teres contribuído tanto para sermos um pouco mais felizes.
Obrigado por nos fazeres descobrir que a vida é uma Páscoa: uma passagem onde
os sinais da morte podem conduzir à gratidão da vida que permanece.
Sejas digno, eternamente, de provocar o sorriso de
Deus.
P. Mário
Sem comentários:
Enviar um comentário