Tomou posse o novo Presidente da
República. Uma onda de optimisto e de suave esperança acompanhou cada passo do
início de funções do mais alto magistrado da Nação. Marcelo Rebelo de Sousa tem
conseguido gerar à sua volta uma verdadeira onda positiva que parece ir muito
além dum acto eleitoral e pode augurar tempos pacificadores para a nossa
convivência.
Entre os gestos que assinalaram
esta tomada de posse, um houve que me chamou a atenção pelo seu lado tão
inédito quanto corajoso: um gesto de diálogo inter-religioso numa sala da
mesquita de Lisboa. Não estamos habituados a que as coisas do Estado com esta
dimensão comportem momentos onde se valorize a importância da religião e da
espiritualidade como dado capaz de potenciar a nossa convivência.
Normalmente, a diversidade das
religiões está associada a conflitualidades nutridas com razões históricas de
maior ou menor espessura. Todavia, nos últimos tempos, são muitos os
testemunhos em que as mais diversas religiões são capazes de se reunirem para
uma oração comum onde as divergências dão lugar à vontade de comunhão.
Na nossa memória, permanece o
histórico encontro de Assis promovido pelo Papa João Paulo II e repetido pelo
Papa Bento XVI. Nesta esteira, estão também os gestos vários do Papa Francisco
que tem semeado uma cultura de diálogo e que ainda, recentemente, proporcionou
um inesquecível encontro com o Patriarca de Moscovo na ilha de Cuba. Estes
gestos revelam o que de melhor tem a alma das religiões e a sua capacidade de
gerar gestos de esperança.
Marcelo Rebelo de Sousa não
esconde a sua opção católica. Ao mesmo tempo, ninguém duvida que o encontro
inter-religioso que marcou a sua tomada de posse foi uma vontade sua, onde se
reconhece uma mundividência rara na nossa cena política. Há, certamente, um eco
de Assis nesta iniciativa presidencial de grande relevância.
Estamos habituados a que os
nossos políticos confundam laicidade com indiferentismo religioso. Ora
laicidade não consiste em anular o lugar da religião na vida das sociedades. Ao
Estado compete não escolher uma religião oficial para promover a missão de
todas valorizando o que de bom podem trazer à sociedade. Com este gesto, o novo
Presidente parece ter bem claro a importância da religiosidade na história
humana.
É particularmente interessante
que o lugar escolhido tenha sido uma sala da mesquita de Lisboa. Seria talvez
mais óbvio e ninguém iria estranhar que esse encontro ocorresse nos Jerónimos
ou até na Sé de Lisboa. Estou certo que nenhum líder religioso se negaria a
estar presente num lugar marcadamente católico. Porém, a delicadeza e o sentido
da convivência aconselharam que pudesse ser a mesquita de lisboa o lugar escolhido.
Gostei de não ver qualquer sinal de resistência do lado católico a que isso
fosse assim. Gostei que o Cardeal Patriarca tivesse estado presente em pessoa e
não tivesse enviado um representante. A simplicidade do encontro não escondeu a
densidade do momento que anunciou a possibilidade de muitos outros gestos no
futuro.
Finalmente, gostei que o pretexto
para juntar os lideres religiosos tenha sido um motivo habitualmente tão pouco
religioso: A tomada de posse do Presidente da República! Católico quer dizer
universal e ficou bem patente neste encontro a alma católica, capaz de abraçar
e de promover diálogos tão urgentes quanto necessários na nossa sociedade. A
unidade é a via certa. É o caminho que Jesus pediu na Última Ceia.
P. Mário
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