O Papa Francisco publicou no
passado dia 8 de Abril, a Exortação Apostólica sobre a família com o título: “A Alegria
do Amor”. Este documento vem na sequência dos últimos dois sínodos sobre a família
e pretende ser uma voz actualizada da Igreja para iluminar esta problemática
tão complexa nos nossos dias.
A cultura dominante tende a
desvalorizar o papel da família. Atacada em todas as frentes, a família no
nosso tempo afigura-se como uma realidade fragilizada e com um futuro nada
risonho. Nestes contextos, saúda-se a voz do Papa e da Igreja que tem a coragem
de erguer a sua voz para falar sobre a família num registo positivo e com uma
gramática de esperança.
Já foi amplamente difundido que
este documento não vem mudar a doutrina da Igreja sobre este assunto tão
nuclear. A unidade e a indissolubilidade continuam a ser os pilares do projecto
cristão de família que têm no evangelho a sua fonte de inspiração. Nem os
tempos actuais nem os ventos da cultura dominante têm a força suficiente para
alterar a doutrina do evangelho sobre a família. Este documento vem reforçar o
ideal da família cristã.
No entanto, ao mesmo tempo, esta
Exortação do Papa Francisco vem desafiar a Igreja para uma nova atitude e a um
novo olhar que constituem talvez, a nota mais saliente do documento. Podemos
dizer que nada muda quanto à doutrina, mas somos desafiados a converter o olhar
para mudar alguns critérios de actuação pastoral sobre as realidades
familiares.
O caminho não é a condenação fria
e implacável sobre as complexas situações que caracterizam a realidade
presente. O caminho também não pode ser a banalização dos critérios de
discernimento para afirmar que tudo está bem, que tudo é lícito e permitido e que
cada um é que sabe o que há-de fazer.
As dificuldades perante a
situação das famílias no mundo de hoje não podem remeter a Igreja ao silêncio
que seria comprometedor para sua missão. O ideal da família cristã está entre
as heranças mais sublimes do anúncio do evangelho. Aos pastores e às
comunidades, o Papa desafia a uma metodologia de acolhimento e à coragem dum
caminho juntos no respeito pela história de cada um.
Acolher, escutar, discernir e
acompanhar são os gestos que hão-de assinalar o agir da Igreja para as mais
diversas situações. Ninguém está excluído da comunhão eclesial que se pode
manifestar de muitas maneiras e através de muitos dinamismos. Mas não se
generaliza a comunhão eucarística, debilitando os sinais da união plena dos
cristãos ao mistério de Cristo. Convida-se a olhar cada caso no seu específico
para que seja possível um caminho que purifique os percursos do amor humano.
O caminho apontado pelo Papa
Francisco é certamente menos legalista e mais relacional; menos redutor e mais
atendo à história de cada um; menos exclusivista e mais integrador. É
certamente mais empenhativo para a missão da Igreja, mas porventura, mais em
consonância com os critérios do evangelho onde as pessoas que Jesus encontra são
sempre mais importantes do que qualquer lei ou qualquer preceito.
Há muito caminho a percorrer; não
nos pode faltar a coragem de abraçar os desafios da conversão e da ousadia do
amor.
P. Mário