sexta-feira, 15 de abril de 2016

A CORAGEM DE PROPOR O IDEAL DA FAMÍLIA NO POSITIVO




O Papa Francisco publicou no passado dia 8 de Abril, a Exortação Apostólica sobre a família com o título: “A Alegria do Amor”. Este documento vem na sequência dos últimos dois sínodos sobre a família e pretende ser uma voz actualizada da Igreja para iluminar esta problemática tão complexa nos nossos dias.

A cultura dominante tende a desvalorizar o papel da família. Atacada em todas as frentes, a família no nosso tempo afigura-se como uma realidade fragilizada e com um futuro nada risonho. Nestes contextos, saúda-se a voz do Papa e da Igreja que tem a coragem de erguer a sua voz para falar sobre a família num registo positivo e com uma gramática de esperança.

Já foi amplamente difundido que este documento não vem mudar a doutrina da Igreja sobre este assunto tão nuclear. A unidade e a indissolubilidade continuam a ser os pilares do projecto cristão de família que têm no evangelho a sua fonte de inspiração. Nem os tempos actuais nem os ventos da cultura dominante têm a força suficiente para alterar a doutrina do evangelho sobre a família. Este documento vem reforçar o ideal da família cristã.

No entanto, ao mesmo tempo, esta Exortação do Papa Francisco vem desafiar a Igreja para uma nova atitude e a um novo olhar que constituem talvez, a nota mais saliente do documento. Podemos dizer que nada muda quanto à doutrina, mas somos desafiados a converter o olhar para mudar alguns critérios de actuação pastoral sobre as realidades familiares.

O caminho não é a condenação fria e implacável sobre as complexas situações que caracterizam a realidade presente. O caminho também não pode ser a banalização dos critérios de discernimento para afirmar que tudo está bem, que tudo é lícito e permitido e que cada um é que sabe o que há-de fazer.

As dificuldades perante a situação das famílias no mundo de hoje não podem remeter a Igreja ao silêncio que seria comprometedor para sua missão. O ideal da família cristã está entre as heranças mais sublimes do anúncio do evangelho. Aos pastores e às comunidades, o Papa desafia a uma metodologia de acolhimento e à coragem dum caminho juntos no respeito pela história de cada um. 

Acolher, escutar, discernir e acompanhar são os gestos que hão-de assinalar o agir da Igreja para as mais diversas situações. Ninguém está excluído da comunhão eclesial que se pode manifestar de muitas maneiras e através de muitos dinamismos. Mas não se generaliza a comunhão eucarística, debilitando os sinais da união plena dos cristãos ao mistério de Cristo. Convida-se a olhar cada caso no seu específico para que seja possível um caminho que purifique os percursos do amor humano.

O caminho apontado pelo Papa Francisco é certamente menos legalista e mais relacional; menos redutor e mais atendo à história de cada um; menos exclusivista e mais integrador. É certamente mais empenhativo para a missão da Igreja, mas porventura, mais em consonância com os critérios do evangelho onde as pessoas que Jesus encontra são sempre mais importantes do que qualquer lei ou qualquer preceito.  


Há muito caminho a percorrer; não nos pode faltar a coragem de abraçar os desafios da conversão e da ousadia do amor.

P. Mário