PÓRTICO|20160527
No nosso tempo, os acontecimentos
passam a uma velocidade vertiginosa. Tudo se desgasta muito rapidamente e a
necessidade de apresentar coisas novas é quase uma neurose do marketing e da
comunicação. De tal maneira enfermamos desta voragem mediática que corremos o
risco de desgastar também tudo aquilo que requer interioridade, tempo e
persistência.
Vem a propósito dizer que o
espírito do Ano Santo da Misericórdia não pode ser uma daquelas notícias que ao
fim duma semana já se deixou de falar ou que se esgotou no momento em que já
cumpri o que está estabelecido: Passar pela Porta Santa, rezar o credo,
confessar-me e participar na Eucaristia. A atitude não pode ser um “já cumpri”
tranquilizador. Um Ano Santo é mais do que um gesto ritual que se cumpre.
A mensagem da Misericórdia deve
fazer caminho dentro de nós. Um caminho sereno, progressivo e iluminador. Não
havemos de nos cansar de reflectir, escutar, rezar e meditar no significado
desta proposta do Papa para toda a Igreja. A Misericórdia de Jesus marca cada
gesto seu, cada palavra que proferiu, cada milagre que realizou. A Misericórdia
há-de também ser o sinal visível da nossa experiência de fé. Ter fé é ser
misericordioso e esta é realidade nunca totalmente alcançada.
O espírito deste Ano Santo deve
ser uma inquietação que se instala no nosso íntimo e nos reconfigura como gente
de fé. Uma verdadeira revolução interior deveria acontecer como fruto deste ano
que é um desafio pleno de significado. Ser misericordioso é passar da doutrina
à vivência do amor; é passar do “Senhor, Senhor...” à práctica do mandamento
novo; é ter o arrojo de “dar a vida” como o nosso Mestre. Nada de mais
contraditório dizer que temos fé sem gestos de misericórdia.
Não basta por isso “passar a
Porta” indicada pelo nosso Arcebispo; urge passar as portas do nosso coração
para sermos mais misericordiosos. O espírito deste Ano Santo é que nos
revistamos da veste do amor como Jesus nos pediu. Passar do cumprimento dos
preceitos à práctica da caridade fraterna é o que está em questão neste Ano
Santo da Misericórdia.
É de assinalar o grande movimento
de peregrinações e algumas delas muito numerosas que se têm dirigido ao
santuário de Vila Viçosa. É um sinal visível do caminho comunitário que estamos
a fazer. A título de exemplo, no Sábado passado, muitas centenas de irmãos
participaram no Jubileu das Santas Casas da Misericórdia; amanhã, dia 28, mais
de mil fiéis participam na Peregrinação do Jubileu das Famílias; no dia 3 de
Junho, Sexta-feira, centenas de irmãos participarão no Jubileu do Apostolado da
Oração. É todo um povo convocado e que mostra a sua vontade de caminhar na fé
respondendo aos apelos deste Ano Santo.
Que ninguém sinta que já cumpriu
o seu dever por ter passado a Porta Santa. A Misericórdia é um apelo diário.
Sem ela, a nossa fé não teria as obras pelas quais se torna um testemunho de fé
viva. Vamos manter vivo o espírito do Ano Santo. Que os gestos jubilares
rasguem os nossos corações e abram as nossas mentes ao evangelho do amor.
P. Mário