PÓRTICO|20161225
Entre os cenários que mais nos
sensibilizam e apaziguam, o presépio ocupa um lugar de eleição. Os olhares
dirigem-se para a ternura do Menino, a docilidade da Mãe e o zelo de José. As
palhas, o burro e a vaquinha, o ambiente de estábulo...tudo gera encanto e
surpresa por mais que contemplemos um presépio. Cada ano nunca esgota o seu
mistério e é sempre nova a Verdade que nos congrega em cada Natal.
O calor do quadro natalício
apela-nos à partilha fraterna, à solidariedade e ao amor que se desdobra em
sinais. Uma atmosfera luminosa envolve esta quadra que muitos acham ser a mais
bela do ano.
Eu associo-me e vibro com o
Natal. Não resisto em fazer presépios, trocar presentes e enviar mensagens de
boas-festas. Gosto do seu perfume, do frio na face, dos olhos que brilham. No
entanto, há sempre um aperto no coração em cada Natal que me faz olhar para o
frio da gruta e para o escuro da noite como clamores que também emolduram o meu
Natal.
Claro que falo dos refugiados,
das vítimas das guerras irracionais e dos que morrem nos atentados; dos mais de
5000 que este ano morreram nas águas do Mediterrâneo em busca de condições de
vida e dos que sucumbem por qualquer tipo de violência. Estas são notícias que
abrem noticiários e preenchem páginas de jornais até à saciedade mas são apenas
um pregão das muitas dores silenciosas e que se reprimem no quotidiano.
O meu olhar inclina-se com igual
veemência para os que me estão perto, para os meus, e que vivem momentos de
grande amargura e sofrimento. O fim dum projecto de família, as doenças graves
que se declaram quando menos se pensa e que ameaçam sonhos legítimos ou as
perdas repentinas quando nada fazia prever uma partida assim. São tão profundas
certas dores que, à minha volta, muitos são levados a dizer que não lhes
apetece celebrar o Natal. Outros não resistem mesmo em dizer este é um tempo em
que as feridas mais sangram e que, se pudessem, apagariam esta data do
calendário.
Há uma gruta fria a envolver a
ternura cálida do presépio. Outrora o Menino não tinha lugar para nascer e só
uma gruta fria O acolheu no escuro da noite. Algo que diz que são precisamente
as dores do presente a suplicar um sorriso de Menino que continue a rasgar o
véu das angústias para nos fazer descobrir novos acenos da esperança.
O meu Natal tem uma gruta fria e
um Menino que aponta caminhos novos. Eu abraço os dois erguendo ao céu uma prece e
um louvor.
P. Mário