sábado, 24 de dezembro de 2016

O FRIO DA GRUTA

PÓRTICO|20161225
  


Entre os cenários que mais nos sensibilizam e apaziguam, o presépio ocupa um lugar de eleição. Os olhares dirigem-se para a ternura do Menino, a docilidade da Mãe e o zelo de José. As palhas, o burro e a vaquinha, o ambiente de estábulo...tudo gera encanto e surpresa por mais que contemplemos um presépio. Cada ano nunca esgota o seu mistério e é sempre nova a Verdade que nos congrega em cada Natal.

O calor do quadro natalício apela-nos à partilha fraterna, à solidariedade e ao amor que se desdobra em sinais. Uma atmosfera luminosa envolve esta quadra que muitos acham ser a mais bela do ano.

Eu associo-me e vibro com o Natal. Não resisto em fazer presépios, trocar presentes e enviar mensagens de boas-festas. Gosto do seu perfume, do frio na face, dos olhos que brilham. No entanto, há sempre um aperto no coração em cada Natal que me faz olhar para o frio da gruta e para o escuro da noite como clamores que também emolduram o meu Natal.

Claro que falo dos refugiados, das vítimas das guerras irracionais e dos que morrem nos atentados; dos mais de 5000 que este ano morreram nas águas do Mediterrâneo em busca de condições de vida e dos que sucumbem por qualquer tipo de violência. Estas são notícias que abrem noticiários e preenchem páginas de jornais até à saciedade mas são apenas um pregão das muitas dores silenciosas e que se reprimem no quotidiano.

O meu olhar inclina-se com igual veemência para os que me estão perto, para os meus, e que vivem momentos de grande amargura e sofrimento. O fim dum projecto de família, as doenças graves que se declaram quando menos se pensa e que ameaçam sonhos legítimos ou as perdas repentinas quando nada fazia prever uma partida assim. São tão profundas certas dores que, à minha volta, muitos são levados a dizer que não lhes apetece celebrar o Natal. Outros não resistem mesmo em dizer este é um tempo em que as feridas mais sangram e que, se pudessem, apagariam esta data do calendário.

Há uma gruta fria a envolver a ternura cálida do presépio. Outrora o Menino não tinha lugar para nascer e só uma gruta fria O acolheu no escuro da noite. Algo que diz que são precisamente as dores do presente a suplicar um sorriso de Menino que continue a rasgar o véu das angústias para nos fazer descobrir novos acenos da esperança.


O meu Natal tem uma gruta fria e um Menino que aponta caminhos novos. Eu abraço os dois erguendo ao céu uma prece e um louvor.


P. Mário

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

JESUS ANDA POR AÍ

PÓRTICO|20161216



Somos dados às rotinas. Criamos hábitos e ritmos de vida que nos dão segurança e estabilidade e com facilidade acomodamo-nos a uma forma de viver que define os seus territórios por onde nos movemos quer como indivíduos quer como sociedade. Sem nos darmos conta, as rotinas envelhecem-nos e o nosso mundo vai ficando cada vez mais pequenino desgastado.

O espírito do Natal vem alertar-nos para o perigo de nos acomodarmos nas nossas seguranças e nas nossas certezas. É importante que “o novo” aconteça, inebriando-nos duma luz mais cristalina e duma esperança que nos abre ao infinito. Quando Jesus nasceu em Belém foi isto que aconteceu e é urgente que continue a acontecer nos nossos dias.

Jesus nasceu e ressoou um novo hino de Glória a Deus, brotou uma nova alegria e uma nova luz despontou na noite fria. As coisas antigas passaram, Ele era sinal do novo tempo, da nova graça, da esperança renovada. O novo rebento de Jessé anunciado pelos profetas, percorria agora os caminhos da Galileia e da Judeia para fazer erguer um novo templo, uma nova Jerusalém, o novo dia do Senhor. Trouxe-nos um novo Baptismo, infundiu sobre nós um Espírito novo e deu início ao novo povo de Israel.

A pessoa de Jesus caracteriza-se pelo “Novo” que irrompeu na história fazendo acontecer a esperança da salvação. Um dos grandes perigos que nos pode condicionar é deixarmos desgastar a alma do Natal e limitarmos os seus horizontes a uns olhares circunstanciais e a interesses que desvirtuam o mistério que deveríamos celebrar. Os consumos frenéticos, as novas tradições manipuladas pela lógica mercantilista, o apagamento dos símbolos genuínos do cristianismo, a pretensão de novos padrões natalícios tornam-nos mais encarcerados nos anúncios translúcidos duma salvação ilusória.

É verdade que uma gigantesca nuvem de solidariedade se levanta nesta quadra, com afectos que se partilham, com cenários iluminados que transformam as nossas ruas e praças em lugares cintilantes e mágicos, com companhas que nos sensibilizam e nos motivam à entreajuda.

Quanta coisa boa e bela acontece por estes dias! No entanto, no meio das noites do nosso tempo, havemos de nos perguntar se ainda há um lugar para o Menino nascer, um recanto de ternura onde uma mãe possa dar à luz, ou se os pastores ainda reconhecem os cânticos dos anjos. Será que há um lugar assim?

Estou certo que o lugar mais indicado para o Menino nascer é o presépio do nosso coração. Só assim poderemos recuperar o entusiasmo, voltar a acreditar nas profecias, descobrir que somos irmãos e que os descampados voltam a florir.

Que os nossos desgastes emocionais, os desencantos sociais e as nossas inquietações íntimas não criem obstáculos intransponíveis à revelação do “Novo” que em nós pode acontecer cada vez que celebramos o Natal de Jesus.

Ontem, estava a colocar uma tela com o Menino Jesus na minha varanda quando vejo uma multidão de meninas e meninos da escola que andavam a percorrer os lugares da nossa terra a dar as boas festas. Acenaram-me para que viesse à porta para acolher o seu anúncio e o seu convite. De repente, era como se a luz do Menino da minha janela brilhasse naqueles olhares de festa onde se descobria um encanto sublime.

Jesus anda por aí com os seus sinais. Não o sentimos já?

P. Mário



sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

PÓRTICO|20161209



NATAL IMPROVÁVEL


Natal de 1940: Jean Paul Sartre, prisioneiro num campo de concentração alemão, compõe um auto para ser representado num barracão do campo. A ideia surge das conversas entre o escritor e um grupo de sacerdotes também prisioneiros e a quem tinha sido concedido a licença de celebrar a missa do galo.  Desse diálogo nasceria a primeira peça de teatro de Sartre: Barioná, ou le Fils du tonnerre, um auto de Natal. Nela se vê um Sartre que, por um instante parece comover-se pela ternura maternal de Maria, pelo olhar de José, pela esperança dos Magos e dos pastores diante do Deus menino. Na complexa obra de Jean Paul Sartre que foi um profeta e intérprete do humanismo ateu semeando os ventos do laicismo no coração do século XX, descobrimos uma página desconcertante que revela uma tela inesperada da alma do escritor francês, filho de mãe católica e pai protestante.

Aqui vos deixo, neste tempo de caminho para o Natal, esta página de Barioná ou O filho do trovão, um texto de cativeiro e que nos parece duma beleza impar revelando o quanto este escritor, mesmo que por instantes, não ficou indiferente ao mistério da maternidade de Maria:

“A Virgem está pálida e contempla o menino. O que dizer daquela expressão de perplexidade que foi vista uma única vez num semblante humano? Porque o Cristo é o seu filho, a carne da sua carne, e o fruto do seu ventre. Ela trouxe-O por nove meses, oferece-Lhe o seio e o seu leite se tornará o sangue de Deus.

Em alguns momentos a tentação é tão forte que esquece que é o Filho de Deus. Ela o aperta em seus braços e sussurra: “-Meu filhinho!” Mas, em outros momentos, imóvel pensa: Deus está ali. E é tomada por uma admiração religiosa por esse Deus mudo, por esse menino que, de uma certa forma, causa medo.

Todas as mães, por um instante, ficam transtornadas diante daquele fragmento rebelde da sua própria carne que é um (seu) filho. E sentem-se exiladas diante dessa nova vida feita da (sua) própria vida, mas que contém outros pensamentos.

Mas nenhuma criança foi arrancada de sua mãe de um modo tão cruel e rápido porque é Deus e supera em tudo o que ela poderia imaginar. E é uma dura provação para uma mãe ter vergonha de si mesma e da sua condição humana diante de seu filho.

Mas creio que deve ter havido outros momentos, rápidos e fugazes, nos quais ela sente que o Cristo é o seu filho, a sua criança, e que é Deus. Ela o contempla e pensa: este Deus é o meu filho. Esta carne é a minha carne, é feito de mim, tem os meus olhos! E a forma da sua boca é semelhante à minha boca. Ele parece-se comigo. É Deus e parece-se comigo.

Nenhuma mulher teve a sorte de ter o seu Deus só para si. Um Deus menino que se pode abraçar e cobrir de beijos. Um Deus quente, que sorri, que respira. Um Deus que está vivo e se pode tocar!

É nesses momentos que eu pintaria Maria se eu fosse pintor.

E José? José, eu não o pintaria. Mostraria apenas uma sombra no fundo do celeiro e dois olhos brilhantes. Pois não sei o que dizer de José, e José não sabe o que dizer de si mesmo. Adora e está feliz por adorar e sente-se um pouco em exílio. Creio que sofra sem confessar. Sofre porque vê o quanto a mulher que ama se parece com Deus, o quanto está perto de Deus. Pois Deus estourou como uma bomba na intimidade dessa família. José e Maria estão separados para sempre por esse incêndio de luz. E toda a vida de José, imagino, será para aprender a aceitar.”

"Mistério do Natal" foi escrito e representado três no Stalag 12D, em Trier, Alemanha. O P. Marius, um dos sacerdotes prisioneiros no campo de concentração, dirá mais tarde que Sarte nunca mais foi foi o mesmo depois deste texto. Ele representa um antes e um depois, desafiando os estudiosos do seu pensamento. Aqui vos deixo uma página dum Natal improvável, ou talvez não, porque... o Menino nasceu para todos.

P. Mário