PÓRTICO|20161202
A DEVASSA DO SOFRIMENTO
Quando a dor bate à porta e a sua
visita se torna dramática e implacável, nada há de mais confortante do que a
proximidade das pessoas que se amam, um ombro amigo ou umas palavras que tenham
o poder de nos regenerar. Por isso, dizemos que um amigo não tem preço e a
amizade há que a proteger e preservar.
Todos teremos já passado por
momentos em que alguém, ao nosso lado, teve uma missão primordial para nós, em
situações de sofrimento atroz. Com essas pessoas ficamos eternamente gratos e,
quando seja necessário, seremos nós os primeiros a estar presentes para
confortar os que já nos confortaram. Esta experiência da solidariedade na dor
leva-nos a reagir ainda de forma mais larga, perante causas humanas gritantes
em países distantes, em situações de cataclismos devastadores ou em acidentes
de proporções tais que reclamam a nossa ajuda. Nessas ocasiões, redescobrimos
que somos família humana e a fraternidade solidária impele-nos a sentir como
nossa a dor alheia.
Toda esta situação nada tem a ver
com o que temos vindo a assistir nos últimos tempos. As técnicas da comunicação
e a mercantilização da informação têm progredido até ao ponto de ultrapassar os
limites do inimaginável e do bom senso, acabando por perverter completamente os
objectivos da sua missão que é informar. O que está a acontecer nos últimos
tempos é uma autêntica devassada do sofrimento humano que acaba por banalizar a
dor para a tornar num espetáculo que só pretende cativar audiências.
Os Media estão sempre ávidos de
histórias e quando surge um drama como um atentado terrorista que vitima
dezenas ou centenas de pessoas, ou um tiroteio que causa dezenas de mortes, ou
um acidente brutal que ceifa a vida, de modo inesperado, a pessoas públicas ou
não, logo montam um circo frenético durante dias a fio ou até semanas, para invadirem
todos os cenários possíveis na tentativa de conseguir ir mais longe do que
conseguiu a concorrência. Basculham memórias, incomodam vizinhos, equacionam o
ridículo para corresponder ao dever de mais três minutos em directo em mais um
telejornal. Tudo para satisfazer a curiosidade mórbida das audiências.
Digamo-lo com toda a verdade: Não
é o dever de informar que está em causa, mas antes, a sofreguidão de ter mais
audiências que permitam subir no ranking e, por consequência, obter mais
receitas. O que importa, acaba por ser a ganância mercantilista e não o elevado
dever de gerar solidariedade humana e proximidade com quem sofre e eu que sou
contra as ditaduras não suporto a dos meios de comunicação social que se deixam
vender aos interesses estranhos que os pervertem.
A dor requer respeito e clama por
um território de privacidade, de silêncio e de ternura. Quem sofre, merece
poder recolher-se no santuário da sua intimidade para aí se confrontar com o
sentido da vida e se interrogar sobre o “para quê” do que está a viver. É o
espaço da nossa espiritualidade que Tolentino Mendoça, no Prefácio à obra de
Joan Chittister, “O Sopro da vida interior”, caracteriza assim: “Por vezes, é
uma luta cravada nas entranhas, por vezes é uma luminosa dança.” Há uma
dignidade na dor que impele à missão de sermos solidários com quem sofre. A vozearia
medonha que circunda o drama feito notícia é um ultraje a quem sofre e uma
invasão indevida que torna mais sangrenta a angústia de certas horas.
Transformar a dor humana num
reality-show é uma tentação que nos torna menos humanos. Mais do que holofotes
e microfones, o sofrimento dos outros necessita dum irmão e do seu abraço, dum
beijo terno, da comunhão na oração e da partilha que reconstrói.
P. Mário
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