PÓRTICO|20170106
O fim dum ano e o início dum novo
é sempre uma ocasião propícia para balanços e perspectivas. Elegem-se os
melhores momentos da política, do desporto, da arte; escolhem-se as melhores
figuras, os mais vitoriosos, os mais azarados e os mais afortunados. O melhor e
o pior exibem-se numa galeria que depressa se esfuma e se esquece.
Entre os balanços que nos vão
chegando, um deles prendeu a minha atenção de modo particular. A agência Fides
do Vaticano noticiou que no ano 2016, 28 agentes pastorais foram mortos no
exercício da sua missão: 12 nas Américas, 8 na África, 7 na Ásia e um na
Europa. O número subiu em relação ao ano anterior e não é difícil imaginar que
a tendência é que se venha a agravar no futuro.
Outrora, não havia lugar nas
hospedarias para o Menino nascer; outrora, um rei iníquo mandou matar os
inocentes para aniquilar esse Menino; hoje, o cenário parece não se ter
alterado muito. Continua a não haver lugar para o espírito de Deus na história.
A mensagem do evangelho continua
a ser incómoda para o mundo. Em certos ambientes onde a violência está mais
presente, assassinam-se os missionários. Em sociedades que pretendem ser mais
civilizadas e democráticas, recorre-se às leis para apagar da história os
sinais do cristianismo ainda presentes na vida dos povos.
É neste cenário que os cristãos
são chamados a viver a fé. E nunca foi muito diferente. A Igreja nasceu a ser
mártir, a dar a vida pelo nome de Jesus. Nas origens, uma legião de mártires
assinala os primórdios da comunidade cristã, conferindo-lhe autenticidade e
valentia. Ser mártir significa ser testemunho. A isto somos chamados.
Ser cristão, hoje, implica a
coragem de enfrentar um mundo agressivo contra a mensagem do evangelho. Vivemos
tempos de decisão e de coragem. Quem é cristão deve assumir-se sem medo, sem
receio, com espírito aberto, com alegria e na liberdade. O testemunho está na
base da vida da Igreja. A difusão do cristianismo no mundo não se deveu a uma
estratégia bem montada ou a um plano bem articulado. Deveu-se, isso sim, ao
testemunho dos cristãos e ao sangue dos mártires.
Para que a Igreja se mantenha
viva e sempre actual, atenta aos desafios da história, o testemunho dos
cristãos é essencial. Cristãos anémicos, acomodados e individualistas não serão
nunca anunciadores da Boa Nova do evangelho como mensagem libertadora. A hora
que estamos a viver está a exigir à Igreja um compromisso sério com a fé que
professa e comportamentos que estão para além da religiosidade. É possível
ser-se muito religioso sem ter um forte compromisso de fé.
O sangue dos profetas e dos
mártires anuncia tempos de testemunho corajoso. Perspectivam-se tempos
difíceis, mas ao mesmo tempo, ganham força as palavras de João Paulo II: “Este
é um tempo maravilhoso para a história da Igreja.” Sangue de mártires é semente
de cristãos.
O testemunho será sempre a alma
da Igreja.
P. Mário