domingo, 8 de janeiro de 2017

O SANGUE DOS PROFETAS

PÓRTICO|20170106



O fim dum ano e o início dum novo é sempre uma ocasião propícia para balanços e perspectivas. Elegem-se os melhores momentos da política, do desporto, da arte; escolhem-se as melhores figuras, os mais vitoriosos, os mais azarados e os mais afortunados. O melhor e o pior exibem-se numa galeria que depressa se esfuma e se esquece.

Entre os balanços que nos vão chegando, um deles prendeu a minha atenção de modo particular. A agência Fides do Vaticano noticiou que no ano 2016, 28 agentes pastorais foram mortos no exercício da sua missão: 12 nas Américas, 8 na África, 7 na Ásia e um na Europa. O número subiu em relação ao ano anterior e não é difícil imaginar que a tendência é que se venha a agravar no futuro.

Outrora, não havia lugar nas hospedarias para o Menino nascer; outrora, um rei iníquo mandou matar os inocentes para aniquilar esse Menino; hoje, o cenário parece não se ter alterado muito. Continua a não haver lugar para o espírito de Deus na história.

A mensagem do evangelho continua a ser incómoda para o mundo. Em certos ambientes onde a violência está mais presente, assassinam-se os missionários. Em sociedades que pretendem ser mais civilizadas e democráticas, recorre-se às leis para apagar da história os sinais do cristianismo ainda presentes na vida dos povos.

É neste cenário que os cristãos são chamados a viver a fé. E nunca foi muito diferente. A Igreja nasceu a ser mártir, a dar a vida pelo nome de Jesus. Nas origens, uma legião de mártires assinala os primórdios da comunidade cristã, conferindo-lhe autenticidade e valentia. Ser mártir significa ser testemunho. A isto somos chamados.

Ser cristão, hoje, implica a coragem de enfrentar um mundo agressivo contra a mensagem do evangelho. Vivemos tempos de decisão e de coragem. Quem é cristão deve assumir-se sem medo, sem receio, com espírito aberto, com alegria e na liberdade. O testemunho está na base da vida da Igreja. A difusão do cristianismo no mundo não se deveu a uma estratégia bem montada ou a um plano bem articulado. Deveu-se, isso sim, ao testemunho dos cristãos e ao sangue dos mártires.

Para que a Igreja se mantenha viva e sempre actual, atenta aos desafios da história, o testemunho dos cristãos é essencial. Cristãos anémicos, acomodados e individualistas não serão nunca anunciadores da Boa Nova do evangelho como mensagem libertadora. A hora que estamos a viver está a exigir à Igreja um compromisso sério com a fé que professa e comportamentos que estão para além da religiosidade. É possível ser-se muito religioso sem ter um forte compromisso de fé.

O sangue dos profetas e dos mártires anuncia tempos de testemunho corajoso. Perspectivam-se tempos difíceis, mas ao mesmo tempo, ganham força as palavras de João Paulo II: “Este é um tempo maravilhoso para a história da Igreja.” Sangue de mártires é semente de cristãos.


O testemunho será sempre a alma da Igreja.

P. Mário

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