PÓRTICO|20170203
Dizem os filósofos que o homem é
um animal religioso. De facto, é fácil constatar a naturalidade dos
comportamentos religiosos que caracterizam a vida dos seres humanos mesmo
quando não se sentem vinculados a uma religião em concreto. Até os que se dizem
ateus assumem muitas com frequência, comportamentos supersticiosos ou outros
que denunciam algum tipo de crença no além.
Esta vocação ao diálogo com o
infinito e esta abertura à transcendência leva a que muitos crentes façam do
acto de fé não só um meio de relação religiosa com Deus, mas uma forma de
configuração de toda a vida, decidindo consagrar-se inteiramente ao Senhor.
Jesus, ao começar a sua vida
pública, passou junto às margens do lago e chamou discípulos que estivessem
prontos a acolher a sua proposta. Os apóstolos são homens que deixam tudo para
seguir Jesus porque se sentem seduzidos pela sua mensagem e pelo seu estilo de
vida. Algo de muito semelhante acontecera já no Antigo Testamento. Os profetas
são gente que escuta a voz de Deus e faz da sua vida uma missão. O profeta
Jeremias resume assim a sua vocação: “Tu me seduziste Senhor e eu deixei-me
seduzir!”
Nunca será demais afirmar que a
Igreja é o povo de Deus em caminho e todos somos candidatos à santidade. Este
pilar do Vaticano II, há que o reafirmar com grande convicção, mas sabemos como
no seio do Povo de Deus, os consagrados são chamados a uma missão única e de
grande actualidade.
A Igreja celebrou ontem, dia da
Apresentação do Senhor e da Purificação de Maria, o dia dos consagrados.
Quantos homens e mulheres se entregam por amor a Deus e ao serviço dos homens!
Sem eles a Igreja perderia uma das suas maiores riquezas e grande parte do seu
testemunho no mundo.
A força dos consagrados é que não
é gente alienada que segue um ideal vago meramente espiritualista só para a sua
consolação interior. Quem se consagra a Deus tem sempre uma grande paixão por
servir a humanidade e contribuir para edificar o Reino de Deus na terra. Não se
entenderia o ideal da consagração, segundo a proposta de Jesus Cristo, que não
seja assim: Contemplar Deus servindo o homem concreto.
Hoje o mundo propõe o imediato e
o fugaz como se a vida fosse unicamente o instante sem horizontes. O ideal da
consagração é um pregão, no coração do mundo, que desafia a humanidade a olhar
mais além, a ter horizontes de infinito enquanto faz da história e da
humanidade a sua grande paixão.
A Igreja e o mundo precisam de
gente que tem a ousadia de se consagrar a Deus. A proposta de Jesus Cristo continua
válida e actual. No deserto clamam as vozes da aridez e o clamor dos pobres e
dos desiludidos: é importante que alguém sacie essa sede e mate essa fome. Os
consagrados são gente de profecia porque descobriram que Deus é a fonte e a
meta, o alimento do caminho e a esperança da pátria.
É tão urgente a missão dos
consagrados!
P. Mário
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