sábado, 25 de março de 2017

TODOS SOMOS CANDIDATOS À SANTIDADE


PÓRTICO|20170324



A notícia correu célere e foi acolhida com grande júbilo: O Papa Francisco aprovou o milagre que estava em estudo pela Causa dos Santos para a canonização dos Beatos Francisco e Jacinta, videntes de Fátima. No dia 13 de Maio, em pleno Jubileu do ano 2000, João Paulo II beatificou os dois pastorinhos que se tornavam os beatos mais jovens, não mártires, da Igreja. Com a notícia da tarde ontem, abre-se a perspectiva da sua canonização, quando Fátima se prepara para celebrar o centenário das aparições.

A data e o local da celebração da canonização irão ser discutidas no próximo Consistório dos Cardeais, no Vaticano, no dia 20 de Abril. Significa que, cronologicamente, há condições para que o Papa Francisco possa canonizar Francisco e Jacinta Marto na sua peregrinação à Cova da Iria a 13 de Maio.

O Cardeal Saraiva Martins, antigo Prefeito da Causa dos Santos, afirmou que “não será nada de extraordinário” se o Consistório dos Cardeais decidir que a canonização seja celebrada em Fátima no próximo dia 13 de Maio. Afirma mesmo que “acho que é normal que o Papa aproveite a sua ida a Fátima para presidir à canonização dos dois pastorinhos, é o lugar mais indicado”.

Os acontecimentos de Fátima continuam a ser uma referência crucial no percurso da Igreja do século XX e neste dealbar do século XXI. Um olhar atento não se deixará de impressionar com o perfil mariano do caminho de fé do nosso povo. Ao longo da nossa história, os momentos mais decisivos foram assinalados com gestos de aliança com Nossa Senhora. Desde o berço que a história de Portugal está encadeada num processo de alianças que se constituem como que num fio de ouro do nosso desígnio de povo: A crise de 1383-85 com Nuno Álvares Pereira de Santa Maria, a gesta dos Descobrimentos, a Restauração da nacionalidade com Dom João IV, a resistência às invasões francesas foram momentos onde os nossos Reis ou os nossos Cavaleiros empreenderam gestos de devoção e de confiança que suscitaram as graças e as bênçãos do céu.

No princípio do século XX, a nação lusitana estava em verdadeiro colapso com as consequências imediatas da implantação da república. A Igreja fora espoliada de todos os seus bens e Afonso Costa anunciava, numa janela de Lisboa, o fim da Igreja católica em Portugal no espaço de duas gerações. Já não havia Reis nem Cavaleiros para novos juramentos de fidelidade e a Hierarquia vivia tempos de grande depressão.

Eis que neste cenário devastador, quando a nação se mostrava impotente para gestos na linha das alianças passadas, fez-se ouvir a voz do céu pela Senhora mais branca do que o sol. Fátima evidencia a fidelidade de Maria a um povo que lhe fora sempre fiel. Agora que o seu povo estava frágil como nunca, sem forças para gestos proféticos, veio do alto a luz necessária para regenerar os difíceis anos do século XX.

É profundamente simbólico que, à míngua de Reis, de Cavaleiros ou de Eclesiásticos, Maria tenha escolhido três humildes crianças para serem arautos da sua mensagem. É a força da debilidade que já se manifestara na Virgem de Nazaré que confundiu os fracos e os poderosos. Três humildes crianças tiveram a força para serem as protagonistas da história do século da ciência, da técnica e das grandes convulsões sociais.

A santidade de Francisco e de Jacinta põe em relevo os desígnios de fé do nosso povo no seu todo. Estou certo que se formos fiéis a Maria, mais páginas se escreverão entre o céu e a terra, pois as alianças de Deus são eternas apesar da fragilidade dos homens.


quinta-feira, 16 de março de 2017

A CULTURA DO DAR

PÓRTICO|20170317




Nascemos com o instinto da sobrevivência. A natureza dotou-se duma sensibilidade aguda para resistirmos no meio das adversidades. Ora esta característica que é um dom porque nos mantém alerta para os perigos, pode ser uma fonte de egoísmos porque nos pode levar a pensar unicamente em nós e no nosso bem pessoal esquecendo os outros. Na natureza impera a lei da sobrevivência. É cada um por si.

A relação com os outros, porém, leva à descoberta da beleza do outro e do quanto ele é importante para mim. Quanto mais nos aproximamos do outro, mais descobrimos o dom que ele pode significar. Este processo da descoberta do outro faz-nos passar da lei da selva à civilização do amor onde o outro faz parte do meu caminho de felicidade.

O cristianismo é esta magnífica proposta de caminhar ao encontro do outro valorizando o que de bem existe em cada ser humano que transporta em si uma centelha de semelhança com o Criador. É precisamente no amor que nos reconhecemos semelhantes a Quem por amor nos criou. Quando nos afastamos desta luz, voltamos facilmente à lei da sobrevivência onde o egoísmo é lei.

A desvalorização e o afastamento dos valores do evangelho por parte da nossa sociedade actual, tem levado o ser humano a debilitar os laços da relação com os outros e a pautar toda a vida pelo individualismo frenético. O poder do mais forte é a grande lei e os mais débeis são massacrados, enjaulados em campos de refugiados e ignorados para não pôr em causa os interesses dos dominadores. Multiplicam-se as corrupções sem escrúpulos onde tudo vale para o lucro fácil. O grave é que já nos habituámos a não reagir perante a banalização da violência, da corrupção e da injustiça.

Os cristãos não podem calar os valores essenciais da sua fé. Perante um mundo que nos quer formatar segundo os critérios do egoísmo, hão-de levantar-se para fazer erguer a sua voz e voltar a propor os valores do evangelho. Quando São Paulo se despedia da comunidade dos efésios, após uma longa estadia naquela comunidade grega, advertiu os anciãos de alguns perigos que se poderiam instalar na comunidade, como a ganância. O apóstolo não hesita em apresentar o seu testemunho de desprendimento em relação aos bens materiais, concluindo que “há mais alegria em dar do que em receber.”

A cultura da partilha, do dar não apenas o supérfluo, é um dos frutos mais belos do cristianismo e uma expressão do amor concreto feito não de palavras, mas de obras. Não podemos deixar que o egoísmo vença o amor. E no mundo em que vivemos isto é uma urgência.

A proposta da partilha que em cada Quaresma a Igreja nos faz, não pode ser encarada como uma obrigação de dar uma pequena esmola a quem mais precisa. Dar é descobrir o dom do outro e, sobretudo acolher a alegria da partilha que humaniza e nos aproxima. Dar uma esmola por obrigação pode esconder a alegria do gesto de dar e pode comprometer o verdadeiro espírito dos valores do evangelho.


Nesta quaresma, vamos redescobrir a alegria da partilha como forma de comunhão com os outros. E talvez nos sintamos surpreendidos por algo que o mundo não dá porque é um dom de Deus. Só assim compreenderemos que dar é mais do que dar coisas; dar é dar-se a si mesmo como caminho de humanização plena.

P. Mário