PÓRTICO|20170324
A notícia correu célere e foi
acolhida com grande júbilo: O Papa Francisco aprovou o milagre que estava em
estudo pela Causa dos Santos para a canonização dos Beatos Francisco e Jacinta,
videntes de Fátima. No dia 13 de Maio, em pleno Jubileu do ano 2000, João Paulo
II beatificou os dois pastorinhos que se tornavam os beatos mais jovens, não
mártires, da Igreja. Com a notícia da tarde ontem, abre-se a perspectiva da sua
canonização, quando Fátima se prepara para celebrar o centenário das aparições.
A data e o local da celebração da
canonização irão ser discutidas no próximo Consistório dos Cardeais, no
Vaticano, no dia 20 de Abril. Significa que, cronologicamente, há condições
para que o Papa Francisco possa canonizar Francisco e Jacinta Marto na sua
peregrinação à Cova da Iria a 13 de Maio.
O Cardeal Saraiva Martins, antigo
Prefeito da Causa dos Santos, afirmou que “não será nada de extraordinário” se
o Consistório dos Cardeais decidir que a canonização seja celebrada em Fátima
no próximo dia 13 de Maio. Afirma mesmo que “acho que é normal que o
Papa aproveite a sua ida a Fátima para presidir à canonização dos dois
pastorinhos, é o lugar mais indicado”.
Os acontecimentos de
Fátima continuam a ser uma referência crucial no percurso da Igreja do século
XX e neste dealbar do século XXI. Um olhar atento não se deixará de
impressionar com o perfil mariano do caminho de fé do nosso povo. Ao longo da
nossa história, os momentos mais decisivos foram assinalados com gestos de
aliança com Nossa Senhora. Desde o berço que a história de Portugal está
encadeada num processo de alianças que se constituem como que num fio de ouro
do nosso desígnio de povo: A crise de 1383-85 com Nuno Álvares Pereira de Santa
Maria, a gesta dos Descobrimentos, a Restauração da nacionalidade com Dom João
IV, a resistência às invasões francesas foram momentos onde os nossos Reis ou
os nossos Cavaleiros empreenderam gestos de devoção e de confiança que
suscitaram as graças e as bênçãos do céu.
No princípio do século
XX, a nação lusitana estava em verdadeiro colapso com as consequências
imediatas da implantação da república. A Igreja fora espoliada de todos os seus
bens e Afonso Costa anunciava, numa janela de Lisboa, o fim da Igreja católica
em Portugal no espaço de duas gerações. Já não havia Reis nem Cavaleiros para
novos juramentos de fidelidade e a Hierarquia vivia tempos de grande depressão.
Eis que neste cenário
devastador, quando a nação se mostrava impotente para gestos na linha das
alianças passadas, fez-se ouvir a voz do céu pela Senhora mais branca do que o
sol. Fátima evidencia a fidelidade de Maria a um povo que lhe fora sempre fiel.
Agora que o seu povo estava frágil como nunca, sem forças para gestos
proféticos, veio do alto a luz necessária para regenerar os difíceis anos do
século XX.
É profundamente
simbólico que, à míngua de Reis, de Cavaleiros ou de Eclesiásticos, Maria tenha
escolhido três humildes crianças para serem arautos da sua mensagem. É a força
da debilidade que já se manifestara na Virgem de Nazaré que confundiu os fracos
e os poderosos. Três humildes crianças tiveram a força para serem as protagonistas
da história do século da ciência, da técnica e das grandes convulsões sociais.
A santidade de Francisco
e de Jacinta põe em relevo os desígnios de fé do nosso povo no seu todo. Estou
certo que se formos fiéis a Maria, mais páginas se escreverão entre o céu e a
terra, pois as alianças de Deus são eternas apesar da fragilidade dos homens.