PÓRTICO|20170317
Nascemos com o instinto da
sobrevivência. A natureza dotou-se duma sensibilidade aguda para resistirmos no
meio das adversidades. Ora esta característica que é um dom porque nos mantém
alerta para os perigos, pode ser uma fonte de egoísmos porque nos pode levar a
pensar unicamente em nós e no nosso bem pessoal esquecendo os outros. Na natureza impera a lei da
sobrevivência. É cada um por si.
A relação com os outros, porém,
leva à descoberta da beleza do outro e do quanto ele é importante para mim.
Quanto mais nos aproximamos do outro, mais descobrimos o dom que ele pode
significar. Este processo da descoberta do outro faz-nos passar da lei da selva
à civilização do amor onde o outro faz parte do meu caminho de felicidade.
O cristianismo é esta magnífica
proposta de caminhar ao encontro do outro valorizando o que de bem existe em
cada ser humano que transporta em si uma centelha de semelhança com o Criador.
É precisamente no amor que nos reconhecemos semelhantes a Quem por amor nos
criou. Quando nos afastamos desta luz, voltamos facilmente à lei da sobrevivência
onde o egoísmo é lei.
A desvalorização e o afastamento
dos valores do evangelho por parte da nossa sociedade actual, tem levado o ser
humano a debilitar os laços da relação com os outros e a pautar toda a vida
pelo individualismo frenético. O poder do mais forte é a grande lei e os mais
débeis são massacrados, enjaulados em campos de refugiados e ignorados para não
pôr em causa os interesses dos dominadores. Multiplicam-se as corrupções sem
escrúpulos onde tudo vale para o lucro fácil. O grave é que já nos habituámos a
não reagir perante a banalização da violência, da corrupção e da injustiça.
Os cristãos não podem calar os
valores essenciais da sua fé. Perante um mundo que nos quer formatar segundo os
critérios do egoísmo, hão-de levantar-se para fazer erguer a sua voz e voltar a
propor os valores do evangelho. Quando São Paulo se despedia da comunidade dos
efésios, após uma longa estadia naquela comunidade grega, advertiu os anciãos
de alguns perigos que se poderiam instalar na comunidade, como a ganância. O
apóstolo não hesita em apresentar o seu testemunho de desprendimento em relação
aos bens materiais, concluindo que “há mais alegria em dar do que em receber.”
A cultura da partilha, do dar não
apenas o supérfluo, é um dos frutos mais belos do cristianismo e uma expressão
do amor concreto feito não de palavras, mas de obras. Não podemos deixar que o
egoísmo vença o amor. E no mundo em que vivemos isto é uma urgência.
A proposta da partilha que em
cada Quaresma a Igreja nos faz, não pode ser encarada como uma obrigação de dar
uma pequena esmola a quem mais precisa. Dar é descobrir o dom do outro e,
sobretudo acolher a alegria da partilha que humaniza e nos aproxima. Dar uma
esmola por obrigação pode esconder a alegria do gesto de dar e pode comprometer
o verdadeiro espírito dos valores do evangelho.
Nesta quaresma, vamos redescobrir
a alegria da partilha como forma de comunhão com os outros. E talvez nos sintamos
surpreendidos por algo que o mundo não dá porque é um dom de Deus. Só assim
compreenderemos que dar é mais do que dar coisas; dar é dar-se a si mesmo como
caminho de humanização plena.
P. Mário
Sem comentários:
Enviar um comentário