quinta-feira, 27 de abril de 2017

A URGÊNCIA DO TESTAMENTO DE JESUS: FRANCISCO NO EGIPTO

PÓRTICO|20170428




O Papa Francisco realiza entre hoje e amanhã uma histórica visita ao Egipto. Trata-se duma visita de pouco mais de 24 horas, mas que se reveste de grande significado. Na sequência dos grandes gestos a que já nos habituou desde o início do seu Pontificado, o que move o Papa é o seu persistente desejo de pôr em práctica o Testamento de Jesus: “-Pai: Que todos sejam Um como Eu e Tu somos Um só!”

O Pontificado de Francisco está recheado de grandes gestos ecuménicos e de diálogos inter-religiosos. Na nossa memória está ainda bem vivo o encontro com o Patriarca de Moscovo em terras de Cuba bem como os diversos encontros com líderes judaicos. Desta vez, o Papa argentino vai poder encontrar-se, pela primeira vez, com os dois Patriarcas mais representativos da comunhão cristão para além da Igreja Católica. No Cairo, no dia 28, estarão juntos o Papa Francisco, o Papa Tawadros II da Igreja Copta Ortodoxa e o Patriarca Bartolomeu de Constantinopla, ou seja, os líderes das três maiores comunhões cristãs do mundo. É a primeira vez que tal acontece desde os primórdios do cristianismo e é um facto da maior importância ecuménica.

Os líderes cristãos são convidados da mais alta figura do Islão no Egipto, Ahmad Al-Tayyib, o Grão-mufti da Universidade de Al-Azhar, que promove uma Cimeira a favor da Paz. Esta Universidade é considerada o mais respeitável centro de ensino islâmico de todo o mundo muçulmano e está a organizar uma conferência sobre a paz para tentar apresentar uma face do Islão diferente da que tem feito manchetes ao longo da última década e meia, devido aos movimentos terroristas. O clima de grande instabilidade que se vive no Egipto não demoveu os líderes cristãos deste encontro. Recorde-se que ainda recentemente, no Domingo de Ramos, um duplo atentado matou dezenas de cristãos no Egipto e as acções terroristas tornaram-se já habituais neste país massacrado pela violência.
O Papa viajou hoje pela manhã e pernoita no país dos Faraós. O Egipto é uma terra que evoca um tempo de cativeiro mas é também um lugar de profecia e de libertação. Francisco celebra missa com a pequena comunidade católica no dia 29 e, depois, encontra-se com o clero do país, antes de regressar a Roma.
Francisco persiste nos grandes gestos. A Via da comunhão e da unidade é certamente a mais condizente com a proposta de Jesus. Aceita ser um convidado, entre outros, para fomentar a Paz. Muitos dirão que o Papa se está a rebaixar perante os outros, porém, Francisco sabe que o caminho da Paz e da concórdia entre as religiões é a rota certa e é muito mais importante do que qualquer honraria.

Deste encontro, havemos também de reter que o Islão genuíno e não deturpado por interesses geo-estratégicos e economicistas, busca os grandes valores humanos e pretender ser uma profecia da Paz. No meio de sinais tão inquietantes que caracterizam o mundo de hoje, não secaram os sinais da Esperança: Os grandes líderes cristãos reúnem-se em solo islâmico para construir a Paz. Que as sementes aí lançadas possam inspirar os que teimam em precipitar o mundo para a guerra.
P. Mário

sábado, 8 de abril de 2017

CONVOCADOS À PAIXÃO

PÓRTICO|20170407



Aproximam-se os dias da Paixão redentora. Por mais que medite nos mistérios da Páscoa de Jesus Cristo, permaneço incapaz de penetrar em tão grande mistério de amor. O segredo é mesmo esse: É o amor que nos envolve e não o contrário. Por isso, os dias da Morte e da Ressurreição do Senhor, são um tempo de nos deixarmos seduzir para nos entregarmos à luz que nos define um caminho de salvação.

O grande dom da história bíblica é a revelação duma imagem de Deus que se apaixona pela humanidade e que por ela, está pronto até a morrer sem esperar nada em troca. O amor gratuito de Deus pelo seu povo, por cada um de nós, é o que atrai na revelação bíblica e nos leva a responder com as nossas vidas, aos apelos de Deus.

As sagradas escrituras não revelam um Deus distante, frio e implacável, sempre pronto a castigar. Antes, o nosso Deus abre sempre clareiras de esperança mesmo quando o nosso pecado tudo compromete. Faz brotar água do rochedo mesmo quando é posto à prova pela impaciência do seu povo e ergue uma serpente de bronze como sinal de salvação mesmo quando a rebeldia exigia outros caminhos.

Os grandes sinais do Antigo Testamento abrem o caminho ao Messias que não corresponde às expectativas humanas, mas é fiel à lógica da misericórdia com que Deus sempre actuou ao longo da história da salvação. Jesus Cristo é o sinal da persistência de Deus no amor que nos tem. A nossa fragilidade e as nossas infidelidades não conseguem fazer com que Deus desista de nós. A Páscoa celebra essa surpresa da fidelidade de Deus que nos abraça na verdade de nós mesmos sem esperar que o ideal de nós tenha de acontecer.

Poderia ter-nos Deus salvo de outro modo? Duma forma mais interessante, mais romântica e menos brutal? Certamente que sim, porém, não nos teria encontrado no abismo de nós mesmos e nas dimensões mais profundas do sofrimento e da morte. Porque nos ama, um gesto de salvação não poderia ser um decreto ou uma manifestação triunfante do seu poder. Só um gesto de amor radical que nos acolhesse na nossa fragilidade infinita, no pior de nós mesmos, nos poderia reerguer na nossa dignidade de filhos.

A Páscoa é isso mesmo: Uma história de Paixão em que Deus Amor está pronto a morrer pela humanidade amada. Somos convocados para essa Paixão. Na liberdade plena da nossa resposta às mãos estendidas de Deus, encontraremos o amor novo que, mais uma vez, Deus quer celebrar connosco.


Não fiquemos indiferentes ao espírito da Páscoa. Sem o espírito da Páscoa ficaremos prisioneiros do espírito do mundo que nos escraviza. Só a paixão por um Deus assim nos libertará.   

P. Mário