PÓRTICO|20170407
Aproximam-se os dias da Paixão
redentora. Por mais que medite nos mistérios da Páscoa de Jesus Cristo,
permaneço incapaz de penetrar em tão grande mistério de amor. O segredo é mesmo
esse: É o amor que nos envolve e não o contrário. Por isso, os dias da Morte e
da Ressurreição do Senhor, são um tempo de nos deixarmos seduzir para nos
entregarmos à luz que nos define um caminho de salvação.
O grande dom da história bíblica
é a revelação duma imagem de Deus que se apaixona pela humanidade e que por
ela, está pronto até a morrer sem esperar nada em troca. O amor gratuito de
Deus pelo seu povo, por cada um de nós, é o que atrai na revelação bíblica e
nos leva a responder com as nossas vidas, aos apelos de Deus.
As sagradas escrituras não
revelam um Deus distante, frio e implacável, sempre pronto a castigar. Antes, o
nosso Deus abre sempre clareiras de esperança mesmo quando o nosso pecado tudo
compromete. Faz brotar água do rochedo mesmo quando é posto à prova pela
impaciência do seu povo e ergue uma serpente de bronze como sinal de salvação
mesmo quando a rebeldia exigia outros caminhos.
Os grandes sinais do Antigo
Testamento abrem o caminho ao Messias que não corresponde às expectativas
humanas, mas é fiel à lógica da misericórdia com que Deus sempre actuou ao
longo da história da salvação. Jesus Cristo é o sinal da persistência de Deus
no amor que nos tem. A nossa fragilidade e as nossas infidelidades não
conseguem fazer com que Deus desista de nós. A Páscoa celebra essa surpresa da fidelidade
de Deus que nos abraça na verdade de nós mesmos sem esperar que o ideal de nós
tenha de acontecer.
Poderia ter-nos Deus salvo de
outro modo? Duma forma mais interessante, mais romântica e menos brutal?
Certamente que sim, porém, não nos teria encontrado no abismo de nós mesmos e
nas dimensões mais profundas do sofrimento e da morte. Porque nos ama, um gesto
de salvação não poderia ser um decreto ou uma manifestação triunfante do seu
poder. Só um gesto de amor radical que nos acolhesse na nossa fragilidade
infinita, no pior de nós mesmos, nos poderia reerguer na nossa dignidade de
filhos.
A Páscoa é isso mesmo: Uma
história de Paixão em que Deus Amor está pronto a morrer pela humanidade amada.
Somos convocados para essa Paixão. Na liberdade plena da nossa resposta às mãos
estendidas de Deus, encontraremos o amor novo que, mais uma vez, Deus quer
celebrar connosco.
Não fiquemos indiferentes ao
espírito da Páscoa. Sem o espírito da Páscoa ficaremos prisioneiros do espírito
do mundo que nos escraviza. Só a paixão por um Deus assim nos libertará.
P. Mário
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