sábado, 8 de abril de 2017

CONVOCADOS À PAIXÃO

PÓRTICO|20170407



Aproximam-se os dias da Paixão redentora. Por mais que medite nos mistérios da Páscoa de Jesus Cristo, permaneço incapaz de penetrar em tão grande mistério de amor. O segredo é mesmo esse: É o amor que nos envolve e não o contrário. Por isso, os dias da Morte e da Ressurreição do Senhor, são um tempo de nos deixarmos seduzir para nos entregarmos à luz que nos define um caminho de salvação.

O grande dom da história bíblica é a revelação duma imagem de Deus que se apaixona pela humanidade e que por ela, está pronto até a morrer sem esperar nada em troca. O amor gratuito de Deus pelo seu povo, por cada um de nós, é o que atrai na revelação bíblica e nos leva a responder com as nossas vidas, aos apelos de Deus.

As sagradas escrituras não revelam um Deus distante, frio e implacável, sempre pronto a castigar. Antes, o nosso Deus abre sempre clareiras de esperança mesmo quando o nosso pecado tudo compromete. Faz brotar água do rochedo mesmo quando é posto à prova pela impaciência do seu povo e ergue uma serpente de bronze como sinal de salvação mesmo quando a rebeldia exigia outros caminhos.

Os grandes sinais do Antigo Testamento abrem o caminho ao Messias que não corresponde às expectativas humanas, mas é fiel à lógica da misericórdia com que Deus sempre actuou ao longo da história da salvação. Jesus Cristo é o sinal da persistência de Deus no amor que nos tem. A nossa fragilidade e as nossas infidelidades não conseguem fazer com que Deus desista de nós. A Páscoa celebra essa surpresa da fidelidade de Deus que nos abraça na verdade de nós mesmos sem esperar que o ideal de nós tenha de acontecer.

Poderia ter-nos Deus salvo de outro modo? Duma forma mais interessante, mais romântica e menos brutal? Certamente que sim, porém, não nos teria encontrado no abismo de nós mesmos e nas dimensões mais profundas do sofrimento e da morte. Porque nos ama, um gesto de salvação não poderia ser um decreto ou uma manifestação triunfante do seu poder. Só um gesto de amor radical que nos acolhesse na nossa fragilidade infinita, no pior de nós mesmos, nos poderia reerguer na nossa dignidade de filhos.

A Páscoa é isso mesmo: Uma história de Paixão em que Deus Amor está pronto a morrer pela humanidade amada. Somos convocados para essa Paixão. Na liberdade plena da nossa resposta às mãos estendidas de Deus, encontraremos o amor novo que, mais uma vez, Deus quer celebrar connosco.


Não fiquemos indiferentes ao espírito da Páscoa. Sem o espírito da Páscoa ficaremos prisioneiros do espírito do mundo que nos escraviza. Só a paixão por um Deus assim nos libertará.   

P. Mário 

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