A figura do Papa Francisco não
estaria na agenda dos cardeais eleitores. Apesar de ser bem conhecido no
Colégio cardinalício, arrisco em dizer que ninguém estaria à espera que os
gestos do Papa argentino fossem tão arrojados e tão frontais. O seu estilo,
manifestado logo no acto de apresentação aos fiéis na Praça de São Pedro, fez
concentrar as atenções da opinião pública e dos meios de comunicação muito além
do que se esperaria.
Um modo de ser tão marcante como
o do Papa Francisco, necessariamente, entusiasma multidões e gera contestações.
É manifesta a onda de apoio incondicional ao Papa Bergoglio dos quadrantes mais
insuspeitos. Mesmo nos ambientes mais laicistas e indiferentes ao fenómeno
religioso, nas esferas tecnocráticas ou culturais, é notório o apreço
generalizado em torno do actual Bispo de Roma. Não será também de estranhar que
dentro da Igreja, muitos sectores se manifestem no sentido de salientar os
aspectos mais desprotegidos pelo actual pontificado. Nunca houve um Papa de
plenos consensos e, quando eivadas de espírito positivo, as críticas são
bem-vindas e ajudam à elaboração das sínteses.
Bem cedo, Francisco deixou bem
claro que iria ser um Papa de sinais. Mais do que a ênfase doutrinal ou o
esplendor litúrgico, o actual sucessor de Pedro, desde o início, optou por atitudes
contidas e por uma pregação simples e de fácil compreensão recorrendo a
pequenas imagens e expressões com grande poder de persuasão que encantaram a
maioria. Hoje, o afecto para com o Papa extravasa de longe as fronteiras da
Igreja Católica.
Estando assim as coisas, seja-me
permitido manifestar a minha apreensão num aspecto que considero fulcral. Não
me parece que a Igreja do nosso tempo se tenha precipitado a imitar o estilo do
Papa Francisco. Fica-se com a sensação que Francisco é um Papa inesperado, mas que
a Igreja prossegue o seu rumo sem que tenha sido inundada duma nova geração de
profetas na senda do pobre de Assis. De modo geral, admira-se o Papa Francisco
e aplaude-se o seu estilo, mas o nosso estilo...não terá mudado muito.
E como seria salutar para a
Igreja uma certa transformação no seu estilo. Uma Igreja mais arrojada e menos
instalada; mais simples e humilde e menos preocupada com a sua imagem; uma
Igreja mais próximo e menos triunfante; uma Igreja com mais sinais proféticos e
com menos preocupações doutrinais.
Temo que o actual Papa seja visto
como um superstar que arrasta multidões e reúne entusiasmos. O apreço da
comunicação social potencia este perigo. Seria bom que passássemos da admiração
à imitação. Urge uma geração de sacerdotes e leigos que testemunhem pela via
dos sinais a beleza do evangelho. Hoje a Igreja não tem débito de doutrinação,
mas a humanidade continua a ter uma sede espiritual que não podemos ignorar. Os
documentos são necessários e fundamentais, mas tocar nas feridas, abraçar a
solidão e edificar a esperança continua a ser a alma da missão da Igreja. Nisto
Francisco é um Profeta, mas é preciso muito mais. Um Francisco não chega: a
missão exige uma geração de profetas.
Nos próximos dias 12 e 13 de Maio
teremos a vista do Sucessor de Pedro por ocasião do Centenário das aparições de
Fátima. Rezemos pelo Papa; imitemos os seus gestos.
P. Mário
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