PÓRTICO|20170602
DIA MUNDIAL DA CRIANÇA
Ontem celebrou-se o dia mundial
da criança. Se a efeméride proporcionou uma reflexão em torno da importância da
vida e do lugar crucial que as crianças ocupam no nosso viver em sociedade, já
valeu bem a pena celebrar o dia mundial da criança. Porém, somos em dizer que não
deveria ser necessário haver um dia para nos lembrar de questões tão
essenciais.
Ontem mesmo, o Papa Francisco
alertava para a necessidade de reagir contra o inverno demográfico. Os filhos
são o gérmen da esperança e hoje há claramente um débito de esperança porque a
vida deixou de ser uma preocupação maior.
Eu mesmo vibrei com algumas das
actividades que vi acontecer um pouco por todo o lado. Vi crianças felizes
porque passaram um dia diferente e toda a atenção do mundo se virou para elas.
No fim de contas...era o seu dia. Nunca serão demais as iniciativas a este
propósito e nunca serão demasiados os sorrisos que conseguirmos fazer florir
nos lábios das nossas crianças.
Temo, no entanto, que a geração
de filhos únicos como alguém já caracterizou a nossa era, leve a um
super-proteccionismo em torno das crianças que pode ser inibidor para muitos
aspectos do crescimento integral das novas gerações. Algo vai mal se aos cinco
anos a criança não consegue atar os sapatos, mas manobra genialmente o
telemóvel com uma destreza que impressiona. Os filhos não são adornos e são
muito mais do que a realização de sonhos legítimos porque não é só a felicidade
dos pais que está em questão, mas sim o futuro da humanidade.
No passado, a atenção e o amor
dos pais distribuíam-se por vários filhos e nunca se esgotavam. O convívio
entre os irmãos era uma escola de valores e a socialização começava em casa.
Ter um filho único ou no máximo dois, leva a uma concentração de todas as
expectativas numa história que não pode falhar sob o perigo de desmoronarem
todos os ideais da vida dos progenitores. A pressão que se coloca no filho que
tem de vencer para realizar os sonhos dos pais pode funcionar mal porque não há
só filhos geniais: há filhos reais.
Gostava mais do tempo em que não
era necessário haver o dia mundial da criança por havia crianças a inundar as
nossas ruas e causar agitação nas casas das famílias. Em cada sede de concelho
tinha que haver uma maternidade e não faltava que fazer às equipas de
obstetrícia. Claro que não faltava emprego aos professores, não fechavam as
escolas nem as aldeias e as vilas estavam desertificadas.
Neste momento as coisas já se
colocam desta maneira: já não se
financia a construção de novos lares da terceira idade porque num futuro muito
breve as camas destas instituições agora existentes serão em excesso para a
procura num futuro próximo. Neste momento, já se equacionam os cenários de
haver poucos idosos no futuro.
Para onde vamos, afinal? O que
está a acontecer à nossa sociedade que nos paralisa perante os grandes desafios
do nosso tempo? Já não é possível esconder mais o problema. Quando a média de
vida das nossas aldeias e vilas se aproxima dos 70 anos, o que acontecerá daqui
a 20 anos?
A celebração do dia mundial da
criança deveria ser um pretexto para compreendermos a urgência da vida na hora
presente. Os filhos são a possibilidade de saldar o débito de esperança que
ameaça o nosso futuro colectivo. E se as crianças são o melhor do mundo, melhor
do que uma criança só muitas crianças mais.
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