PÓRTICO|20170609
A modernidade trouxe consigo a
sociedade do bem-estar e muito contribuiu para dignificar a vida dos homens e
das mulheres do nosso tempo. Os padrões de vida elevaram-se e não será
exagerado dizer que, apesar de todas as crises, nenhuma era conheceu um grau de
desenvolvimento e de condições de vida como o nosso tempo. É uma era
maravilhosa a que vivemos, mas é importante termos bem presente...que “Não vale
tudo”.
No eixo da sociedade do
bem-estar, está uma concepção de vida baseada nos direitos individuais. A
política tornou-se num areópago de reivindicações onde parece que quem gritar
mais, melhores resultados consegue. E...não vale tudo!
Reivindicar os meus direitos, mesmo
legítimos, não pode passar por cima dos princípios éticos essenciais para uma
convivência sadia. Os outros têm que fazer parte das minhas exigências.
Prejudicar gravemente os outros para alcançar os meus fins não deveria ser
visto como algo admissível no nosso viver em sociedade. Usar cenário limite e
de ruptura como ameaça e estratégia é perigoso e preocupante.
Recentemente, houve ameaças de
greve na aviação para os dias da visita do Papa a Fátima. Com frequência se
usam datas e períodos mais intensos para ameaçar com greves nos mais diversos
sectores. Usa-se o caos com forma de ameaça. Neste momento, está convocada uma
greve de professores em plena época de exames. Entretanto, os enfermeiros
ameaçam paralisar os blocos de partos se, finalmente, não forem regularizadas
as suas carreiras. E nós achamos que...não vale tudo!
Não está em questão a justiça nas
reivindicações dos professores ou nas pretensões dos enfermeiros, mas estas não
podem ser alcançadas prejudicando gravemente o exercício normal da convivência
social.
Um aluno que se esforçou um ano
inteiro para alcançar os seus objectivos também tem direito a prestar as suas
provas com normalidade e serenidade. Uma mãe que está para dar à luz, tem
direito a que tudo se proporcione para esse fim.
Nos alvores da democracia
dizia-se como máxima sapiencial que “os meus direitos acabam quando começam os
direitos dos outros”. Pode ser enganador este princípio. Melhor seria que
tivéssemos consciência que os meus direitos se alcançam quando os direitos dos
outros também são tidos em conta.
Uma sociedade de indivíduos a
reivindicar direitos poderá transformar-se numa selva ingovernável, sem ética
nem moral. Urge construir uma sociedade de pessoas onde a relação com os outros
é uma tensão permanente na busca do bom, do belo e do bem. As coisas só estarão
bem para mim se promoverem o equilíbrio e a dignidade de todos.
P. Mário